Sempre é tempo de Brian Eno

Como eu fui boazinha em 2010, o Papai Noel me trouxe um presente bem legal no Natal: uma caixa luxuosa com CDs, vinis e uma gravura assinada por ninguém menos do que Brian Eno.

Claudia Assef & Eletrônica, O Estado de S.Paulo

08 de janeiro de 2011 | 00h00

A caixa foi lançada por um dos selos que mais tem contribuído com novidades de altíssimo nível no universo da música eletrônica, o Warp Records, a casa de artistas como Aphex Twin, LFO, Autechre, Plaid e outros que trazem em comum um forte apreço pelo lado mais experimental e maluco dos beats eletrônicos.

Na caixa há apenas composições novas, que Brian Eno gravou com Jon Hopkins e Leo Abrahams, em seu estúdio em Londres. Mas o disco, que leva o nome de Small Craft On A Milk Sea, é só uma desculpa para falar da vida e obra de um dos artistas mais interessantes da música pop. Sim, porque ele foi muito além das batidas eletrônicas, e como!

Assim, sem pensar muito, dá pra dizer que tem pelo menos um dedo de Eno do glam rock ao sucesso do U2, passando, claro, pela "música de elevador", nome genérico da ambient music, uma de suas marcas registradas. Mas, sério, tem muito mais! Da trilha da série de TV Miami Vice até a produção de alguns dos álbuns mais importantes de David Bowie há Brian Eno na assinatura.

Nascido em 1948 numa região rural da Inglaterra, Eno já chegou com pinta de gente importante: batizado Brian Peter George St. John Le Baptiste de la Salle Eno, ele logo se viu obrigado a encurtar o nome. Influenciado pelo som de um dos pioneiros da música minimalista, o americano Steve Reich, antes dos 20 anos Eno já havia participado de algumas orquestras.

Em 1971, Brian Eno passou a integrar o grupo que mais dava o que falar no momento, o Roxy Music, com suas roupas insanas e rock sofisticado. Era a vez do glam rock, e Brian Eno, devidamente vestido de mulher, passava a dividir as atenções com outro Bryan, o Ferry, com seus ternos elegantes e jeito de dandy.

Depois de gravar dois LPs com a banda (Roxy Music, de 1972, e For Your Pleasure, de 1973), Brian Eno deixou para trás fãs ensandecidos, vestidos, batom e boás para mergulhar com tudo na música eletrônica.

Em 1975, depois de lançar sua obra-prima da música minimalista, Another Green World, um acidente de carro deixou Eno de cama por vários meses, levando-o à criação de uma de suas marcas mais famosas, a ambient music. Eno pensou que a música, afinal, deveria ter as mesmas propriedades da luz ou das cores e se espalhar pelo ambiente sem atrapalhar o equilíbrio das coisas. Desta premissa surgiu o disco Discreet Music, o primeiro de um volume de dez trabalhos experimentais lançados por seu próprio selo, Obscure.

Já firme na ambient music, vieram dois trabalhos que ajudaram a espalhar a fama do gênero: em 1977, lançou Music for Films, uma coleção de fragmentos criados como trilha sonora de filmes imaginários e, em 1978, Music for Airports, um disco concebido para acalmar passageiros de avião apavorados.

Ao mesmo tempo em que se tornava o papa da ambient, Eno se enfiava de cabeça no que havia de mais vanguardista na música eletrônica naquele momento, o krautrock, gênero de música libertário, muito dominado por ruídos, improvisação e instrumentos eletrônicos, que dominou o underground da Alemanha da virada dos anos 60 até a década de 70. Desse balaio onde o que valia era renegar a cultura anglo-americana, onde só o radicalismo importava, nasceram grupos como o Neu! e, muito mais popular, o Kraftwerk.

Em 1977 e 78, Eno gravou dois discos com o grupo Kluster (Cluster & Eno e After The Heat). Outro produto com forte influência do período alemão são os três discos de David Bowie produzidos por Eno, para muita gente os melhores da carreira do camaleão até hoje: Low (77), Heroes (também de 77) e Lodger (de 79, que traz a curiosa faixa DJ, feita em parceria com Eno, uma visionária tiração de sarro do culto ao DJ - "Eu sou DJ/Eu sou o que toco/Tenho seguidores".

Ainda em 78, Eno produziu a pérola da new wave Q: Are We Not Men? A: We Are Devo!, estreia do grupo Devo, que trazia pitadas de sintetizadores, por sugestão do produtor. O mix de guitarras e batidas eletrônicas entrou para a história e ajudou a definir o som do Devo para sempre.

Ainda nem chegamos aos anos 80, e o cara já tem história que daria para rechear filmes e livros. Dá mesmo pra achar alguns vídeos sobre ele na internet, mas eu recomendaria um bem recente, conduzido pelo próprio Brian Eno, que foi ao ar ano passado pelo canal inglês BBC Four. O nome é Arena - Brian Eno, Another Green World. É só vasculhar a internet que dá pra assistir ao filme inteiro, dividido em três partes.

Vendo o documentário dá para entender como sua mão foi importante no trabalho de uma certa banda irlandesa, que em 1984 cruzaria seu caminho. Naquele ano, Eno produziu o disco The Unforgettable Fire, o primeiro de vários (The Joshua Tree, Achtung Baby, Zooropa, All That You Can"t Leave Behind e No Line On The Horizon) que ele produziu para o U2.

Você leu bastante coisa sobre Brian Eno, mas posso dizer que não é nem metade do que este multifacetado inglês já aprontou. Ainda tem trilha de games, trabalhos com artistas como Laurie Anderson, Talking Heads e Coldplay, seu lado artista plástico e até um jogo de cartas de baralho (Oblique Strategies), que ele inventou nos anos 70 e agora está disponível para iPhone etc. Seja através da caixa da Warp que acaba de sair (que custa US$ 99 mais a taxa de envio) ou por qualquer outra desculpa, é sempre tempo de conhecer o genial Brian Eno.

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