Sempre à frente

A obra de Gilberto Mendes é revista em CD e livro. Provas de uma das visões de maior alcance na música erudita

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

02 Abril 2011 | 00h00

A caminho dos 89 anos, que completará em 10 de outubro próximo, o compositor santista Gilberto Mendes é tema de dois lançamentos em CD e livro. A gravação é A Música de Gilberto Mendes - Vários Compositores Num Só, do selo Sesc, que resgata um punhado de obras importantíssimas dos anos 60 e também alcança criações dos últimos anos. E o livro é Gilberto Mendes: Vanguarda e Utopia nos Mares do Sul, de Teresinha Prada (editora Terceira Margem), que examina o período de forte engajamento político do compositor, provando que existiu uma resistência tenaz da música contemporânea à ditadura de 64.

Gilberto entremeia as caminhadas diárias na orla da praia em Santos com a criação musical. Sua mais recente composição intitula-se Os Meninos da Vila, tributo à atual safra de talentos comandados por Neymar. De certo modo, esta peça fecha virtuosamente um longo ciclo criativo iniciado no final dos anos 60, quando ele escreveu Santos Football Music, celebrando a geração de Pelé (a peça estreou em Varsóvia, em 1973, em concerto comandado por Eleazar de Carvalho, e lançou seu nome no circuito internacional da música erudita contemporânea).

Os Meninos da Vila, que estreará na próxima Bienal de Música Contemporânea do Rio de Janeiro, dura 6 minutos, e prevê flauta, oboé, fagote, trombone tenor, dois violinos, dois violoncelos, um contrabaixo e piano... E quatro apitos, daqueles de juízes de futebol. "Em homenagem ao futebol jovem santista", escreve ele, "a música segue sem parar num fluxo somente melódico que representa a bola no campo indo sempre em frente, no pé de um ou mais jogadores. Num zigue-zague entre o tonal e o atonal, momentos de dribles, de jogador lutando pela bola, um tutti. Sempre uma melodia solo, ou de intervalos, ou de acordes. É a bola no campo. Há um texto musical e ritmo de apitos, a serem interpretados por quatro dos instrumentistas."

Na política. Mas Gilberto também já assinou música de luta política, como Mamãe eu Quero Votar, coral a quatro vozes, em 1984, para a campanha das Diretas Já!. Solidarizou-se com as vítimas do incêndio na favela em Cubatão naquele mesmo ano em Vila Socó, Meu Amor. Escreveu na época que "não devemos esquecer os nossos irmãos da Vila Socó, transformados em cinzas, lixo em pó. A tragédia da Vila Socó mostra como o trabalhador é explorado, esmagado sem nenhum dó".

Desde os anos 60, quando criou o Festival de Música Nova de Santos, alinhado ao Curso Latino-americano de Música Contemporânea de Montevidéu de Corim Aharonián, Gilberto transformou-se num líder informal desta resistência por aqui. O levantamento de Teresinha Prada ora lançado em livro não deixa dúvidas: "Houve, sim, músicos eruditos irmanados numa mesma luta, estético-política, contra o autoritarismo que se implantou durante duas décadas na região".

Sonhando com o século 19. Da neue musik ao pós-modernismo, ele já viveu, deglutiu e criou segundo todos os "ismos" do século 20. A verdade do compositor, para ele, seria algo que muda junto com o mundo que o rodeia? "Homem novo, música nova. Você muda como pessoa, a sua música muda. Nós é que mudamos, não a música. Estou sempre mudando, logo minha música também. Sobretudo no momento musical em que vivemos, a gente está afogado em uma miscelânea de tipos de música os mais variados e contraditórios, o tal de pós-modernismo, que vem recuperando tudo que foi abominado pelo modernismo: a beleza, a emoção, a comunicação."

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