Seminário discute Sérgio Buarque de Holanda

As comemorações do centenário denascimento do historiador Sérgio Buarque de Holanda, no dia 11de julho, já começam nesta terça-feira no Centro Cultural Banco doBrasil (CCBB), com um seminário sobre sua obra. Serão três diasde debates, antecipando o documentário O Explicador doBrasil, em fase de montagem para estrear na época doaniversário, com direção de Nelson Pereira dos Santos. Só aeditora Companhia das Letras, que detém o direito de publicaçãode sua obra e lançou quatro títulos (duas coletâneas), deixará adata passar em branco. Não lançará nenhum título dele este ano, nemem edição comemorativa. O homem que se apresentava como pai de Chico Buarque deHolanda (e das cantoras Miúcha e Cristina) tornou-se fundamentalpara a cultura brasileira muitos antes de os filhos famososnascerem. Em 1936, lançava seu primeiro livro, Raízes doBrasil, que, se não mudou nossa história, modificou a forma decontá-la. Ao lado de Casa-Grande & Senzala, de GilbertoFreyre, e Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio PradoJúnior, dava uma visão nova do passado, em que os fatos e suasconseqüências ganhavam explicação clara, objetiva e plena deerudição. Raízes do Brasil e os nove livros que se seguiram(além de artigos e coletâneas que organizou) nunca perderam aatualidade ou a coesão de pensamento, apesar dasinterpretações que receberam em variados meios de expresão, decentenas de teses acadêmicas ao desfile da Unidos do Viradourode 2000, em que Joãosinho Trinta dava sua versão de outro títulofundamental, Visão do Paraíso. "São obras complementares,como já dizia Antonio Candido. Raízes é o corpo e Visão, a almade seu pensamento", lembra Nelson Pereira dos Santos, quetrabalha no documentário, um longa-metragem que terá versão emcapítulos para exibição em televisão. A viúva Maria Amélia e asfilhas Miúcha e Ana colaboraram no roteiro e o neto Zeca deHolanda é o assistente de direção. "Tenho 20 horas de gravações, bom material de pesquisa, mas a idéia global só virá com aedição, a partir desta semana." Enquanto o filme não vem, o seminário do CCBB abordaa influência que Sérgio Buarque de Holanda exerce no Brasil dehoje. "Tentamos equilibrar a discussão dos aspectos menosconhecidos e dos consagrados de sua obra", adianta oorganizador do evento, Bruno Gomide, um jovem historiador de 30anos. "Buscamos equilíbrio entre convidados nacionais einternacionais, de especialistas e historiadores que vãoconfrontá-lo com outros autores." A convivência pessoal e acadêmica de Sérgio Buarque comoutros intelectuais é o tema desta terça. Na quarta-feira,será discutida a repercussão de sua obra no exterior e, noúltimo dia, o Brasil dos anos 20 e 30, época em que se forjou umpensamento que perpassa toda sua obra. O encontro é oportunotambém porque, embora Holanda seja unanimidade, os historiadoresdiscordam sobre sua influência. Bruno Gomide chama a atenção para a pesquisa exaustiva ea capacidade de síntese, aliada a uma linguagem que conectahistória e literatura. Já o historiador José Sebastião Wagner, daUniversidade de São Paulo (USP), que foi assistente de Holanda,ressalta que ele é único e incomparável na compreensão do Brasil, mas é pouco entendido pelos estudantes, que não lêem bem suaobra. A professora Maria Odila Dias, da USP e da PontifíciaUniversidade Católica (PUC) de São Paulo, é de opinião que eletem a rara capacidade de ser, ao mesmo tempo, acessível esofisticado e é muito lido. "Sérgio Buarque tem inspirado maise mais estudos e livros sobre sua obra", diz Maria Odila. Releituras - No documentário O Explicador do Brasil,Nelson Pereira dos Santos tenta englobar todos esses lados,partindo de uma cronologia escrita pela viúva, Maria Amélia,pouco antes da morte de Sérgio Buarque de Holanda. Santos leuRaízes do Brasil na faculdade de Direito, nos anos 40, econta que o impacto não diminuiu em outras releituras. No filme,orçado em R$ 800 mil, cada um dos sete filhos apresenta um doscapítulos de Raízes do Brasil, enquanto Antonio Candido e ocompositor Paulo Vanzolini falam da convivência com o amigo demuitos anos. Para Miúcha, mais que uma homenagem, o documentário temsido uma grande confraternização familiar, pois todos os 21descendentes (7 filhos e 14 netos) contribuem para suarealização. "Revimos passagens interessantes, como a gravação,em fita cassete, de uma festa lá em casa, em que papai canta emalemão e nós acompanhamos, e até o filme do meu casamento, com oJoão Gilberto, em que ele aparece fazendo as honras de sogro",conta ela. "Ele foi um pai sui generis, que não cobrava oestudo nem levava a festinhas, mas soube deixar uma influênciadiferente em cada um dos filhos." Na série de homenagens, só falta a reedição dos livrosde Sérgio Buarque de Holanda. Apesar de Raízes do Brasil tervendidos 78 mil exemplares desde 1995, quando foirelançado pela Companhia de Letras, não há previsão de novostítulos. As coletâneas O Espírito e a Letra e Livro dosPrefácios, que saíram pela mesma editora, ao lado deCaminhos e Fronteiras, também vendem bem, mas Visão doParaíso, que não é reeditado desde os anos 80, vai esperaroutra oportunidade.

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