Seminário discute jornalismo público

O que é jornalismo público? Esta questão foi discutida no 1.º Seminário Latino-Americano de Jornalismo de TV Pública, que teve início quarta-feira e encerrou-se hoje, paralelamente à 4.ª Reunião da Comissão América Latina da Association Internationale des TéLévisions D´Education et de Découverte (AITED). Reunindo representantes de televisões educativas da América Latina, Inglaterra e França, o programa apresentou alternativas ao modelo de TV comercial e discutiu aspectos como direito à informação do cidadão, ética e audiência.Para o presidente da TV Cultura, Jorge da Cunha Lima, jornalismo público é uma terceira via entre as TVs comercial e estatal. A pauta rejeita os modelos pré-estabelecidos do "hard news" e aprofunda os assuntos de maior interesse da comunidade, contribuindo para a construção da cidadania. "Devido à pressa e à briga pela audiência, o jornalismo das emissoras comerciais privilegia a tragédia, o factual e a quantidade de informações, mas não dá tempo para que o telespectador reflita sobre as reportagens", explica. "Enquanto a TV estatal é refém dos interesses do Estado, a TV pública é um espaço independente da política, mercadológica e intelectual", completa. Um dos melhores exemplos de jornalismo público é o praticado pela emissora britânica BBC. "Ela possuiu uma programação de extrema qualidade e imparcialidade. Mas isso só é possível porque conta com uma ótima verba e independência", comenta Lima. Para assegurar a liberdade da TV Cultura, emissora pública que faz parte da Fundação Padre Anchieta, foi preciso buscar recursos com a iniciativa privada. Além do intercâmbio de informações, o seminário viu contornos da primeira parceria concreta dela, o Convênio de Buenos Aires, que propõe a troca livre de material jornalístico entre todas as emissoras associadas. "Está mais do que na hora de pararmos de veicular matérias sobre a América Latina produzidas por agências como a Reuters e a CNN e criarmos uma agência pública de notícias latino-americana", comentou o jornalista Marco Antônio Coelho Filho, diretor de Jornalismo da TV Cultura.A primeira tentativa de pôr em prática o convênio é o Dia Internacional da Criança na TV, programação especial exibida sempre em dezembro, que rendeu três Emmys à TV Cultura. "Fixando um tema e trabalhando desde já, conseguiremos concretizar nossa intenção, produzindo e trocando programas feitos para e pelas crianças", disse relações-internacionais da Cultura, Teresa Otondo. "Além de precisarmos escolher um país para ser a sede, temos de definir como arrecadar verba. Uma saída seria cada uma das emissoras afiliadas contribuir com uma quantia", apontou Lima.Outro ponto abordado no seminário foi a conquista da audiência pelas TVs educativas. Para Coelho Filho, o caminho é apresentar uma programação de qualidade a todas as classes. "Não há só lideranças nas classes A e B; em todas os estratos da sociedades há líderes que formam opinião", explicou. "Nossa ambição não é a mesma das emissoras comerciais; a média da TV Cultura é de dois a três pontos do Ibope. Agora, vamos partir para os quatro pontos", completou Lima.A ética, outro ponto discutido no seminário, também não deve sucumbir às brigas pela audiência e aos velhos estereótipos. "Na briga pela audiência, as emissoras esquecem o lado positivo de uma notícia. Isso não é esconder, mas abordar o fato de forma diferente", disse o colombiano Javier Dario Restrepo, da Fundación por um Nuevo Periodismo Iberoamericano.

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