Stephane Mahe/Reuters
Stephane Mahe/Reuters

Semana de moda de Paris sugere inverno prático e colorido

Em desfiles, Chanel cria supermercado e ironiza sociedade de consumo

Flavia Guerra, O Estado de S. Paulo

08 de março de 2014 | 16h00

E a temporada inverno 2015 das mais importantes semanas de moda internacionais chegou ao fim esta semana. Entre as questões clássicas como o que vai ser tendência para tecidos, cores, formas, qual a it girl do momento e quem entra e quem sai do comando das mais importantes maisons fashion do mundo, uma imagem superou o clichê e valeu mais que mil palavras e imagens. O supermercado da Chanel causou na Paris Fashion Week.

Famosos por seus grandes cenários, os desfiles da maison sempre surpreendem. Mas desta vez, em um cenário que fazia nítida ironia ao fato de que fast-food e fast fashion nunca caminharam tão próximos, Karl Lagerfeld transformou o Grand Palais em um supermercado. Das roupas à água, passando pelo salmão defumado e aos enlatados, tudo era Chanel. A ideia foi impactante e entrou para o hall das melhores desta temporada. Não necessariamente pela coleção trazida por Lagerfeld, mas sim pelo caos que causou o anúncio no fim do desfile. Os convidados podiam pegar legumes e frutas para matar a fome. Bastou ouvirem isso para que dezenas de ‘vips’ presentes ao desfile se engalfinhassem e, literalmente, saqueassem as prateleiras montadas no Grand Palais.

Mas a fome em questão era a fashion. Ou a sede de se sentir vip e levar um pedacinho do universo Chanel para casa. Em dezenas de vídeos que circularam pelas redes sociais nesta semana, era possível ver pessoas arrancando cartazes das paredes. "Fiz esta coleção para mostrar uma nova forma de lidar com o luxo, que não precisa ser restrito a produtos limitados. Se você é sortudo o suficiente para comprar artigos de luxo, compre. Mas não os use para mostrar às pessoas o quão rico você é", disse Lagerfeld ao jornal Daily Mail.

Enquanto o kaiser da moda dizia isso, fashionistas praticamente saqueavam as prateleiras em busca de algo para mostrar o quão fashion eram. Ou para guardar um pote de geleia Chanel de lembrança? "Trabalho demais e não tenho muito tempo para fazer compras. E não como muito. Então não fico muito tentado a comprar muita comida também. Mas não tenho nada contra quem compra. É uma tentação, há muitas coisas inúteis que compramos. Isso faz parte da nossa cultura pop", completou.

Em tempos de crítica ao consumismo exagerado, mais irônico e sintomático, impossível. No supermercado-passarela da Chanel, a mulher pode ir às compras de sobretudo de tweed sobre calça de moletom ou legging. E complementar o look com tênis de corrida, devidamente em versão fashion. Em consonância com a tendência forte do próximo inverno, a coleção é colorida, prática e confortável. "A moda é parte da vida. Não pode estar desassociada dela. A mulher pode comprar na loja Chanel da Rue Cambon e depois dar uma passada com o marido no supermercado para comprar algo para o jantar", conclui o estilista.

Luxo prático. Seguindo a linha da moda prática, Nicolas Ghesquière (ex-Balenciaga) fez sua aguardada estreia na Louis Vuitton, dando às mulheres peças muito usáveis, como saias godês, pulôveres, casacos de couro. Em uma nítida tentativa de reforçar o prêt-à-porter da marca, algo que seu predecessor Marc Jacobs defendia há anos, a coleção é também confortável. A julgar pela estreia de Ghesquière, sua gestão criativa da marca promete.

Quem também apostou no conforto e em uma moda muito usável foi a Valentino. De românticos shapes sessentistas aos mais psicodélicos anos 70, a dupla de estilistas Maria Grazia Chiuri e Pierpaolo Piccioli emocionou a plateia e arrancou lágrimas até mesmo do próprio Valentino, que assistiu a tudo da primeira fila.

Com maxibolas a listras e florais, a coleção é invernal, mas não perde a cor. Lagerfeld já havia defendido um inverno menos sombrio, em que a mulher até pode usar peças pesadas, mas se sentir alegre. Chiuri e Piccioli confirmam a tendência e trazem uma estação fria sem perder os tons de vermelho, verde, rosa, azul, entre outros.

A silhueta varia dos evasês (saia rodada e cintura bem marcada) aos tubinhos, passando pelos longos vaporosos e cheios de romantismo e fantasia.

Por falar nisso, este shape surge como forte tendência. Completam a lista as silhuetas mais arquitetônicas, que ganharam destaque nos casacos estruturados do britânico Gareth Pug, nos sobretudos casulos oversized da Kenzo e os maxipaletós da Prada. Miuccia Prada, aliás, que não dá ponto sem nó, levou para a Semana de Milão um mix inteligente de itens masculinos com femininos, com peças fluidas e transparentes.

Ainda na linha anos 60, estão em evidência os curtos com cintura marcada e saia rodada, presentes tanto na Valentino como na Saint Laurent. Esta, ao contrário da maison italiana, apostou nos ares mais Swinging London e trouxe saias plissadas, muito xadrez, minivestidos de veludo molhado, casaquetos pretos e com silhueta em A. Este, aliás, parece ser o shape das próximas estações, para alegria das que adoram, e pedem luxo, mas sem perder praticidade e conforto.

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