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Semana de 22 completa 90 anos e muitas das obras estão nos museus

Conjunto amplo de pinturas, esculturas e outros projetos que ficaram expostos podem ser facilmente vistos

Maria Hirszman - Especial para o Estado,

13 de fevereiro de 2012 | 16h45

Entre 11 e 18 de fevereiro de 1922, o saguão do Teatro Municipal de São Paulo abrigou um conjunto amplo de obras – pinturas, esculturas, projetos arquitetônicos – consideradas ousadas o suficiente para receberem o título de “modernistas”. O intuito era demonstrar a existência de um amplo movimento de contestação às normas de criação alinhadas com os modelos ditos “passadistas”, vinculados a regras e modelos importados e transmitidos artificialmente por meio de uma esterilização acadêmica. É um grande e comum engano, no entanto, atribuir à Semana de Arte Moderna o papel de momento fundador da arte moderna no Brasil. A atualização dos modelos de criação artística se deu de forma muito mais sutil e diversificada do que indica a mitificação desse momento explosivo pela historiografia oficial.

 

Para entender tal afirmação, basta olhar com mais detalhes as obras, tanto dos artistas que participaram efetivamente do movimento como daqueles que estavam ausentes, mas ocupam posições de destaque na história da arte moderna brasileira. Enquanto alguns nomes que constam do catálogo da Semana de Arte Moderna caíram no esquecimento, como por exemplo Alberto Martins Ribeiro e Hildegardo Velloso, outros devem obrigatoriamente ser mencionados – e vistos – quando se trata de estudar esse fenômeno. Para referendar tal afirmação, pode-se lembrar da importância de Lasar Segall, cuja obra está reunida no museu que leva seu nome no bairro paulistano de Vila Mariana.

 

Esses trabalhos se encontram à disposição do público em uma extensa rede de museus, sobretudo no Rio e em São Paulo. Os interessados em conhecer essa história mais de perto podem encontrar belos recortes da produção da primeira geração modernista brasileira em instituições de perfil bastante diverso, como o Masp, a Pinacoteca do Estado, o Museu de Arte Contemporânea de São Paulo (MAC), o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) ou o Museu de Arte Moderna (MAM) e Museu Nacional de Belas Artes no Rio. Mesmo considerando seus perfis específicos (enfatizando seja a produção local em termos de longo prazo, seja uma inserção no contexto internacional), esses espaços oferecem mostras de caráter permanente com obras de grande relevância, que dão ao público a possibilidade de conhecer melhor a história cultural do País.

 

 

Dentre as figuras maiores do modernismo nacional, Anita Malfatti e Di Cavalcanti foram os grandes destaques do evento. Nesse momento, no entanto, a pintora já havia feito, havia muito, as duas exposições individuais que a consagraram como uma das principais responsáveis pela absorção do projeto modernista no Brasil, e, em 1922, sua obra já dava claros sinais de acomodação. Talvez por isso boa parte das 20 pinturas que ela levou ao saguão do Teatro – a mais ampla representação da mostra – já haviam sido vistas na antológica exposição de 1917, criticada no célebre artigo Paranoia ou Mistificação, publicado por Monteiro Lobato no Estado de S. Paulo. Dentre as telas reexibidas destacam-se por exemplo O Homem Amarelo e A Boba, pintadas nos anos 1915 e 1916, que possuem a intensidade expressiva característica de sua fase áurea. As duas obras pertencem à USP, podendo ser apreciadas, respectivamente, no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) – que reúne parte significativa da produção modernista por abrigar a coleção que pertenceu a Mario de Andrade – e MAC.

 

Enquanto a fase mais instigante de Anita Malfatti já havia ficado pra trás, há 90 anos a obra de Di Cavalcanti ainda não apresentava a potência cromática e o intenso vínculo com a figura do brasileiro, sobretudo da mulata, que a caracterizariam. Na Semana de Arte Moderna, que ajudou a idealizar e para a qual fez todo o projeto gráfico, o artista carioca expôs mais desenhos do que pinturas, e as poucas telas que apresentou eram completamente distintas da produção que iniciaria depois de sua estadia na França, a partir de 1923.

 

Aliás, se há um aspecto comum entre os vários artistas interessados em desenvolver no País uma linguagem plástica de caráter moderno é a importância inquestionável da escola francesa em suas formações. O escultor Victor Brecheret – terceiro artista que, segundo Aracy Amaral, formaria a tríade modernista da Semana de 22, com Anita Malfatti e Di Cavalcanti – estava inclusive na capital francesa durante a realização do evento e só participou por meio de obras cedidas pelo colecionador Ronald Carvalho. Há trabalhos seus em diversas instituições e também em espaços públicos, como o Monumento aos Bandeirantes, no Parque do Ibirapuera (cuja primeira maquete foi criada em 1920, dois anos antes da Semana).

 

Tarsila do Amaral também estava em Paris no início de 1922 e não participou da Semana. As obras mais significativas de Tarsila seriam produzidas, como no caso de Di, um pouco depois, nessa mesma década, graças à fusão entre o vocabulário pictórico aprendido com os mestres cubistas e a aproximação de uma temática e de um cromatismo local. A artista, que ocupa um dos lugares de maior destaque da arte brasileira do século 20, também tem o privilégio de possuir obras-primas de sua autoria nos museus e coleções privadas mais importantes brasileiros. Apenas para citar alguns exemplos, seu autorretrato com manto vermelho está no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio; e o MAC, MAM-RJ e Masp abrigam telas extremamente significativas da pintora. Outra forma de conhecer bem o trabalho da artista é o exaustivo levantamento de sua produção, que gerou um catálogo raisonné de grande qualidade e que está disponível para o público na internet.

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