Semáforos, farmácias, máscaras ou três cenas paulistanas

Ao parar no semáforo, o carro é imediatamente cercado por um bando de crianças, adolescentes, jovens adultos.

SÉRGIO TELLES, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2012 | 03h08

Alguns correm entre os veículos, colocando nos retrovisores pequenos sacos plásticos com balas, bombons ou flanelinhas, acrescidos de um pequeno escrito onde está afirmado que aquilo não é um assalto e sim um trabalho honesto, pelo qual é pedida uma remuneração. Outros, com água e rodos, ameaçadoramente se oferecem para limpar o para-brisa. Os menores não se dão ao trabalho de oferecer serviços supérfluos e não solicitados, vão diretamente ao que interessa e pedem dinheiro, querem moedas e trocados. Uns poucos ainda fazem malabarismos com fogo, a maioria exibindo um sofrível desempenho nesse desempenho.

Vagamente atemorizado, o motorista tenta manter a calma. Pra um diz que não precisa limpar o vidro. Pra outro diz que não tem moedas, está sem trocado. Não, também não quer comprar flanelinha nem balas de hortelã ou de qualquer outro sabor. Pros malabaristas mais esforçados, eventualmente faz um elogio. Procura sorrir para uma das criancinhas de cara suja e cabelo emaranhado.

O medo diminuiu e foi substituído por um estado de preocupação. Olha para as crianças, pros adolescentes, pros jovens adultos, pensando que todos eles deveriam estar em outro lugar, em casa com os pais, na escola, no trabalho.

Sabe o motorista que todos aqueles meninos, rapazes e moças vivem um presente negro, sem poder alimentar nenhuma esperança de um futuro melhor. Estão batalhando a sobrevivência em meio à fria indiferença dos homens, num áspero aprendizado que certamente terá efeitos desastrosos para todos. Sabe que apenas um fio os separa da franca marginalidade.

O motorista é invadido pelo desânimo e aumenta o volume do rádio do carro. A música o distrai até o próximo grande cruzamento, quando tudo recomeça.

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As farmácias invadiram São Paulo.

Para onde você vai, se depara com uma delas.

E tem mais. Elas são todas iguais, seguem o mesmo figurino padronizado.

Feericamente iluminadas, elas reluzem num tempo que lhes é próprio.

Dia ou noite, ali estão elas resplandecentes em sua branca limpidez.

Apesar de lembrarem um pouco os supermercados com suas gôndolas, nas quais estão expostos os remédios mais populares, os produtos de higiene, os cosméticos, as farmácias procuram afetar um ar mais compenetrado, querem ter mais classe.

Fazem questão de manter uma pose mais contida, da qual emana uma atmosfera de rigor e contensão.

Vindo do caos das ruas, com sua pressa, com seus achaques e doenças, o comprador, ao entrar numa dessas farmácias, parece ingressar num oásis de calma e organizada eficiência.

Às vezes ele até mesmo se sente intimidado, temeroso de poluir com suas preocupações e ansiedades aquele templo branco e austero, no qual reina uma calma serenidade.

De onde vieram todas essas farmácias? Que fazem elas por aqui? Haverá tanta gente doente, precisando de seus serviços?

Supondo que seja este o caso, com sua nova roupagem, estariam elas tentando driblar uma dolorosa realidade, a realidade da doença?

Estariam tentando dizer - "olha, não é verdade que você está sofrendo de algum mal, que você está doente e precisando tomar remédios; você está simplesmente fazendo compras, como sempre".

As novas farmácias estariam tentando transformar num conhecido ritual de consumo - mais um entre tantos - o cumprimento de um procedimento desagradável e angustiante, ou seja, a compra de medicações para o tratamento de enfermidades.

Muitos, aliviados, embarcam nesse engodo. O que não surpreende. Afinal, o consumo não é apresentado como a panaceia universal para combater a angústia que nos corrói?

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Dia desses, perto de meu consultório, presenciei uma batida policial. Os homens da lei estavam revistando um vendedor de zona azul, um rapazote que trabalha por ali com o pai. Como ninguém intercedia por ele e o pai não estava presente, dirigi-me a um dos policiais. Identifiquei-me como médico que trabalhava nas redondezas e que conhecia a rapaz e o pai dele. Disse aos policiais que o rapaz era gente boa. Enquanto eu falava, o rapaz dizia pra mim, "tudo bem, dotô, pode ir, é só uma batida, pode ir, dotô".

Quando terminei de falar, o policial se voltou pra mim e disse - e o senhor sabia que esse rapaz que o senhor diz ser gente boa é um grandessíssimo maconheiro e já foi preso várias vezes por furto?

Claro que eu não sabia, como também ignorava se o policial dizia aquilo para justificar sua indesculpável truculência. De qualquer forma, constrangido, fiquei sem saber o que fazer ou dizer. O moleque também estava passado. "Tá tudo certo, dotô, pode deixar", disse-me ele.

E eu o deixei. Enfiei minha viola no saco e fui embora, pensando nas inesperadas descobertas que ocorrem quando se rompe a distância habitual que mantemos com nossos semelhantes e aparece o que se esconde atrás da máscara usada nos contatos sociais. Temos então de lidar com esse Outro que ali surge, diferente daquilo que imaginávamos.

Essa experiência nos faz reconhecer as limitações de nosso conhecimento, a possibilidade de equívocos e erros de julgamento, ao mesmo tempo em que mostra a necessidade de abertura e tolerância frente ao desconhecido e o inesperado.

Quanto ao rapaz da batida policial, algum tempo depois voltei a encontrá-lo rua vendendo seus talões de zona azul e nos cumprimentamos como se nada tivesse acontecido. Estávamos de novo com nossas máscaras.

Nas circunstâncias, era o que havia a fazer.

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