Sem tragédia, a beleza não produz catarse, não liberta

Filme começa e termina no Mont Saint Michel, na Mancha

O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2013 | 02h15

Terrence Malick faz um filme que não para nunca. O movimento perpétuo. A câmera está sempre se movendo e quando ela para, em raros momentos, os atores seguem se movimentando dentro do plano. Aonde leva essa movimentação? A lugar nenhum. O filme começa e termina no Mont Saint Michel, na Mancha. Os dois atores são poderosos, Ben Affleck e Javier Bardem, mas Malick os desviriliza. Transforma o Anton Chigurh de Onde os Fracos Não Têm Vez num padre consumido pela dúvida e Affleck num fraco que não consegue amar.

As mulheres são belas. Olga Kurylenko, que se assemelha a uma jovem Catherine Zeta-Jones, e Rachel McAdams, como todas as fêmeas do diretor, exigem do homem o que ele não pode lhes dar. Rachel se oferece, as mãos amarradas, ao homem que a rejeita. Como o filme é multilíngua, falado em inglês, francês e espanhol, entra uma italiana que diz que Olga é cigana e a exorta a ser 'libera'. Mas como as mulheres podem se libertar? Elas se ligam à natureza, ao primitivo. Passeiam entre bisões, entre cavalos selvagens. São prisioneiras dos seus corpos e desejos, como os homens são prisioneiros da própria fraqueza, ou dúvida.

A natureza está sempre em erupção no cinema de Malick. Affleck investiga uma suposta contaminação ambiental. A beleza de árvores, prados, rios cede lugar a águas contaminadas. O que fizemos, nós, a espécie humana, com nosso hábitat? O paraíso perdido pelo pecado original. Malick busca a transcendência. A humanidade é digna de pena. Mas existe, no cinema dele, a 'América', definida como uma terra honesta, generosa.

Desde seus primeiros filmes, Malick já deixou claro que tem a beleza no DNA. Cria belos planos, intensificados pela música. Mas não é um cinema que liberta. O diálogo, quase sempre em off, é uma exaltação. Não há grande tema que ele não aborde. Só que nada evolui - o drama nem os personagens. Javier Bardem, um touro de Picasso, fica contido dentro daquele colarinho branco de padre. Há momentos em que você espera que Anton Chigurh reapareça e pegue em armas para liberar o ator.

O próprio espectador fica aprisionado, soterrado por tanta beleza. O filme se movimenta para não andar. Como não há tragédia, não existe catarse. As frases são de autoajuda, a forma se impõe sobre o fundo. Há anos que Malick virou a grande fraude do cinema norte-americano. O grande autor de arte, à força de tanto querer dizer, transforma seu tudo em nada. Vão lhe dizer, a você, leitor/espectador, que tudo aquilo é metafísico. É mentira. Uma cena de Zarafa, outra de O Homem de Aço dizem mais que Amor Pleno. Admiti-lo implica questionar o que é o cinema? Quem acha que é Malick faça bom proveito dessa mediocridade disfarçada de soberba. Do amor dos homens ao de Deus, não há nada ali que seja novo nem original. Nada que não tenha sido mostrado antes e melhor. O único verdadeiro sinal de vida, pois há um, é o carpinteiro que vem fecundar a mulher. Pelo menos isso. Face ao mistério da Santíssima Trindade, Malick escolhe o bom José. É curioso, mas pouco para que o filme seja dedicado a 'the wonder'. A Stevie ou ao 'maravilhoso' da existência? / L.C.M.

CRÍTICA

JJJJ ÓTIMO

JJJJJ

RUIM

TUDO NO FILME ESTÁ EM

MOVIMENTO, MAS NÃO CHEGA A LUGAR

NENHUM

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