'Sem Título, Técnica Mista' é um dos destaques do Mirada

Política que transcende os manuais e discursos para contaminar a cena. Encerrada a segunda edição do Mirada - festival ibero-americano de Artes Cênicas de Santos - dá para dizer que o evento entregou mais do que um panorama do teatro produzido nos 14 países contemplados. A partir de perspectivas distintas, a programação conseguiu mapear como essas nações falantes do português e do espanhol lidam hoje com suas heranças. Trouxe um acerto de contas com cicatrizes do passado, mas também com as feridas que seguem abertas.

AE, Agência Estado

18 de setembro de 2012 | 11h05

Exemplo eloquente veio do Peru. "Sem Título, Técnica Mista" foi criado pelo conceituado grupo Yuyachkani em 2004. Surgiu impactado pela comissão da verdade que acabara de ser instalada em seu país para investigar os crimes da ditadura. O espetáculo, porém, recua ainda mais no tempo. Volta até o fim do século 19 para examinar os reflexos da guerra com o Chile. Dá saltos através das décadas capturando episódios, imagens, signos dessa trajetória sangrenta. Evidencia-se uma violência que não é episódica, ocasional. Mas sistêmica.

É arriscado o caminho que essa companhia veterana trilha com sua obra. Um trauma de tal monta não pode ser contemporizado. Exige contundência. A complexidade da dor, porém, não caberia em uma alegoria que elegesse apenas culpados e inocentes. "Sem Título, Técnica Mista" tem aspecto de instalação. Coloca os atores em um espaço que lembra uma exposição, com fotografias e objetos. Por vezes, tem a aparência de um velho museu. Ali, pedaços de memória vão surgindo para, gradativamente, tornarem-se vivos, próximos. O registro, que a princípio soa épico, resulta lírico. Converte-se em chaga rasgando a pele.

Ao público não é dado o direito de apenas contemplar de fora. Cada um dos espectadores está dentro desse inventário de horrores. Anda de um lado para o outro, perseguindo as cenas. Vê-se soterrado por uma dor que não conhecia. Mas se torna sua.

Mexicanos - Como país homenageado deste ano, o México esteve amplamente representado: teve sete montagens na grade. Nem todas alcançaram o mesmo êxito. A vontade de trazer um número grande de trabalhos talvez tenha desequilibrado a seleção. Mas foi possível deparar-se com belezas insuspeitas. "Amarillo", do grupo Teatro Línea de Sombra, mostrou-se capaz de surpreender mesmo ao lidar com um tema já tão amplamente debatido: a migração clandestina para os Estados Unidos.

Encenada nos últimos dias do Mirada, a peça "Ensaio Sobre Frágeis" aparentemente destoa do tom "engajado" de outras montagens. Não existe uma questão a ser debatida. Apenas histórias mínimas, sensações que rolam da boca de um ator para outro. Os colombianos do grupo La Maldita Vanidad também merecem ser lembrados pela trilogia "Sobre Alguns Assuntos de Família". As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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