Júlia Rónai/Divulgação
Júlia Rónai/Divulgação

Sem salário há três meses, funcionários do Municipal do Rio seguem em esquema de revezamento

Colaboradores estão sem salário há três meses

Fábio Grellet e Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2017 | 19h47

RIO - Sem receber salários há três meses e sem o 13º salário de 2016, funcionários do Teatro Municipal do Rio decidiram, em assembleia nesta quinta-feira, 22, manter o esquema de revezamento de seus serviços em vigor desde maio. Sem dinheiro sequer para ir todo dia à sede do teatro, no centro do Rio, onde os artistas ensaiam, os servidores deliberaram por deixar de pé apenas a programação para o dia 14 de julho, quando a casa de espetáculos completa 108 anos e vai apresentar "Carmina Burana". 

 

Os 20 bailarinos que vão se exibir nesse espetáculo comemorativo serão os únicos a ensaiar diariamente, auxiliados por uma 'vaquinha' dos colegas - só assim eles conseguirão pagar as passagens de ônibus para o deslocamento e se alimentar. O teatro é mantido pelo governo estadual, que está em calamidade financeira desde o ano passado e não paga salários da maioria dos servidores.

 

Segundo os funcionários, a ópera "Um Baile de Máscaras", de Giuseppe Verdi, que iria estrear em 13 de julho, foi cancelada porque não há condições de fazer os 22 ensaios necessários. O diretor artístico, André Heller-Lopes, nega que houvesse data de estreia: "Esse espetáculo foi programado pela direção anterior (do teatro) e não tinha data definida. Temos tomado muito cuidado ao anunciar a programação, para não divulgar algo que não podemos cumprir".

Além do espetáculo de 14 de julho, existe a possibilidade de estender "Carmina Burana" ao longo de julho. Mas os funcionários decidiram só fazer isso se receberem pelo menos o salário de abril, e mais algum auxílio financeiro - não necessariamente o salário de maio. Essa proposta foi apresentada hoje à direção do teatro, mas o presidente da casa, André Lazaroni, que também é secretário estadual de Cultura, estava em Brasília e só seria informado depois sobre a proposta. 

 

Segundo o diretor artístico, até a próxima semana Lazaroni vai decidir se atende às condições exigidas pelos funcionários. "Se conseguirmos, a ideia é recomeçar em 13 ou 14 de julho", afirmou o diretor. "Desde que assumi, em março, foram feitas três óperas, com os esforços de todos os funcionários. O teatro não para, mas precisamos estar atentos ao fator humano", afirmou.

 

Na última terça-feira, 20, terminou uma temporada popular de "Carmina Burana", levada ao palco pelo coro, orquestra e balé como forma de resistência à penúria. Foram quatro récitas a preços abaixo dos praticados usualmente, todas lotadas. Antes das apresentações - as primeiras com os três corpos artísticos juntos este ano -, o locutor do Municipal leu um texto que narrava a situação de desespero dos corpos artísticos e demais funcionários. O público, que levou alimentos para serem doados aos funcionários, reagiu calorosamente, com muitas palmas e gritos de "Fora Pezão" e "Fora Temer".

 

"Esse espetáculo é fruto da iniciativa e esforço dos servidores e de funcionários dessa fundação. Estamos dispostos a continuar servindo ao público com nossa arte, porém, com três folhas salariais em atraso, chegamos ao limite das nossas forças, possibilidades e dignidade. Esse espetáculo também é devido ao engajamento da população do Rio de Janeiro, que aderiu de forma tão solidária e carinhosa à nossa campanha SOS Teatro Municipal para a arrecadação de alimentos e distribuição de cestas básicas. Perdurando essa situação de atraso, entretanto, não sabemos até quando será possível manter as atividades e a programação", dizia o texto.

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