Sandra Santos/Divulgação
Sandra Santos/Divulgação

Sem represar a emoção

Em Depontacabeça, Áurea Martins interpreta inéditas e composições perdidas no tempo, todas de Hermínio Bello de Carvalho

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2010 | 00h00

Vidal Assis tem 25 anos. Pixinguinha nasceu há 113 e morreu há 37. O que o jovem violonista e o mestre da flauta têm em comum? São parceiros do poeta Hermínio Bello de Carvalho, e têm seus nomes nos créditos do CD Depontacabeça (Biscoito Fino), o novo de Áurea Martins - que, careta fosse, poderia ser intitulado "Áurea Martins Canta Hermínio Bello de Carvalho". O lançamento é esta noite, no Rio.

Outros jovens parceiros são Fernando Temporão e o violonista Lucas Porto, produtor e responsável pelos bem acabados arranjos. Isso sem falar nos músicos. "Essa garotada tem a idade que o Hermínio tinha quando se tornou parceiro de Cartola (é coautor do clássico Alvorada)", Áurea comenta a beleza da renovação do ciclo musical.

"Eles trazem inquietação, e preciso dela. Mais do que envaidecer, isso traz enorme responsabilidade. Quase todos os músicos que participam do disco tornaram-se meus parceiros. Infelizmente, não deu pra incluir todas as músicas que, às pencas, tenho feito com eles", conta o letrista de 75 anos, que tem na amiga uma de suas intérpretes favoritas.

Cheia de predicados, a cantora, de "mesma densidade de Elizeth Cardoso (sua madrinha na vida artística) e Alaíde Costa (amicíssima)", tem a voz rouca mais que perfeita para os versos de Via Crucis (Vidal Assis/Lucas Porto/Hermínio): "Cantar é minha Via Crucis/ Minha função peregrina/ Nos versos carrego as cruzes/ Que me couberam por sina." Bem apropriado para a crooner de 70 anos que leva nas costas 50 anos na noite, "artista diamantífera", "fonte límpida", como escreveu Aldir Blanc no texto de apresentação do CD.

A faixa é uma das sete inéditas do disco. Outra é a lamuriosa Me diz, ó Deus, parceria de Hermínio e Moacyr Luz, que se repete na romântica Sete Dias, na rascante Quando o Amor Acaba e ainda em Só o Amor Constrói e Zoeira, mais sacudidas, todas também inéditas. Com Vidal Assis ele fez o samba Bola no Bola, ode ao Cordão da Bola Preta, palco na região da Grande Lapa que vem recebendo Áurea ultimamente. E com Vital Lima, a visceral Judiarias, que já havia merecido registro de Alaíde Costa: "Pois o teu fim de festa é o meu romper de dia/ E o que te retalha, me costura e avia/ E o que te esfrangalha nunca que chegaria/ A ensombrecer-me as noites, que dirá os dias."

Acho Que É Você, de Hermínio e Paulo Valdez, filho de Elizeth, foi gravada pela Divina nos anos 60, assim como Isso É Que É Viver, a parceria com Pixinguinha. O CD é fechado com duas de suas composições mais populares nas rodas de samba: Pressentimento, com Elton Medeiros, e Mas Quem Disse Que Eu Te Esqueço, com Dona Ivone Lara.

"Hermínio já tinha vontade de fazer um CD autoral, e escolheu a mim", revela Áurea, com a modéstia excessiva que a marca tanto quanto a integridade de suas interpretações. "A qualidade das composições dele não mudou. Hermínio tinha que ser mais reconhecido, por ter servido tanto ao País culturalmente."

Pois Hermínio pensa o mesmo da cantora, que vive, em suas palavras, sob "um espantoso manto de invisibilidade" no cenário da MPB. O título do CD foi ele quem cunhou: "É que Áurea não molha a ponta dos dedos na água, ela vai de "ponta cabeça" em direção às ondas. Ou seja: não represa a emoção."

ÁUREA MARTINS

Modern Sound. Rua Barata Ribeiro, 502-D, Copacabana, telefone

(21) 2548-5005. Hoje, às 19 h. Grátis (necessário fazer reserva).

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