SEM PUDOR

A artista portuguesa Joana Vasconcelos conta como sua Noiva de 20 mil tampões passou de rejeitada a milionária

O Estado de S.Paulo

24 de março de 2013 | 02h13

A estrela da feira de arte holandesa Tefaf, que termina hoje, não foi o retrato de um ancião pintado pelo espanhol Velázquez (1599-1660), à venda por 14 milhões na galeria do marchand nova-iorquino Otto Naumann, mas uma artista portuguesa muito engraçada que há cinco anos expôs, no octógono da Pinacoteca do Estado, uma peça site-specific chamada Contaminação. Joana Vasconcelos é a representante de Portugal na Bienal de Veneza, que será aberta em junho. Fez muita gente rir no simpósio organizado pela feira holandesa, da qual participaram especialistas no mercado de arte e o célebre colecionador americano George Abrams, dono de uma exclusiva coleção de gravuras holandesas do século 17.

Abrams, que comprou essas gravuras (inclusive de Rembrandt) por uma bagatela há meio século, teria dificuldades para conseguir hoje um desconto de Joana que, além de divertida, é espertíssima quando se trata de dinheiro. A história de como saiu do anonimato e se transformou numa estrela internacional, ultrapassando a barreira do US$ 1 milhão, é difícil de acreditar de tão maluca que é. Nascida em Paris há 42 anos, mas vivendo em Lisboa, onde mantém seu ateliê, Joana Vasconcelos ficou conhecida por se apropriar das formas de objetos cotidianos e agigantá-las, agregando a elas materiais insólitos, como faziam os artistas do nouveau réalisme nos anos 1960, movimento criado pelo crítico Pierre Restany (1930-2003) e pelo artista Yves Klein (1928-1962) para "redefinir os paradigmas do ready made".

Hoje disputada por galerias, Joana abriu ontem sua primeira retrospectiva no Palácio Nacional da Ajuda, em Lisboa, apresentando 40 obras depois do enorme sucesso de sua mostra no Palácio de Versalhes, realizada no ano passado, em que mostrou bules pantagruélicos e outras peças que a tornaram famosa, como o gigantesco par de sapatos construído com tampas de panelas (Marilyn) e as lagostas de louça que, como alpinistas, escalam uma mesa de jantar. Para Joana, vale a máxima do pop Claes Oldenburg: o mundo é pequeno demais para seus objetos.

A história do mais popular deles, A Noiva, seduziu a seleta plateia de participantes do simpósio da Tefaf, formada também por colecionadores e marchands, além de especialistas do mercado de arte. A Noiva (veja foto acima) é, aparentemente, um lustre de cristal, mas, quando o espectador chega perto, percebe que é feito de tampões O.B. Versalhes recusou a obra, considerada "inadequada" para exposição no palácio. Joana não se surpreendeu com a censura. "Em Portugal, ninguém queria mostrar A Noiva (2001), até que uma discoteca espanhola se ofereceu para exibir o trabalho", contou Joana, lembrando a primeira oferta que recebeu por ela, de US$ 900, que não cobria sequer os custos dos 20 mil absorventes higiênicos usados. Mais tarde, conta ela, teria recebido uma outra oferta da Johnson & Johnson, de US$ 25 mil. Em 2005, convidada pela Bienal de Veneza, decidiu levar o lustre, que já participou, desde então, de 13 exposições (de Budapeste a Istambul). "Não acreditei que estava na bienal e passei sete dias plantada sob A Noiva, até que um advogado americano me ofereceu US$ 500 mil pela obra."

Desconfiada, ela acabou descobrindo a verdadeira razão desse interesse: o advogado estava processando o fabricante (os 20 mil tampões integravam um lote contaminado, segundo a artista). Daí para chegar a US$ 1 milhão foi um pulo. Joana não tem pudor de revelar a história. São as leis do mercado - e ela aceita de bom grado que apareçam malucos dispostos a torrar dinheiro com absorventes higiênicos contaminados. "Se não fosse a Bienal de Veneza, não estaria hoje na Tefaf", conclui, sem revelar, contudo, o valor pago pela feira de Maastricht para ter em seu hall de entrada uma de suas obras site-specific, semelhante à Contaminação, que ela mostrou na Pinacoteca do Estado.

Joana é apenas um entre milhares de artistas que, da noite para o dia, passam a valer milhões de dólares, como o inglês Damien Hirst que, no caso de seus milionários tubarões, contou com a triangulação artista-marchand-colecionador para sustentar o seu preço. O esquema funciona. / A.G.F.

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