Sem pressa, por favor

Aposentar os prazeres da vida para viver mais? Não se peça isso ao Ricardo Chaves

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

15 Agosto 2017 | 02h00

Estava eu falando, na semana passada, do Ricardo Chaves, o Kadão, grande fotógrafo e também, agora sei, irresistível memorialista, quando fui por mim mesmo interrompido, e, tendo se esgotado o espaço, deixei o assunto pelo meio, sem ao menos contar que A Força do Tempo - Histórias de um Repórter Fotográfico Brasileiro acaba de ganhar, da Associação Gaúcha de Escritores, o prêmio de Melhor Livro do ano na categoria Especial. 

Na verdade, quase nada falei desse lançamento caprichado da editora Libretos, dessas 184 páginas recheadas de textos e fotos, uns e outros de primeiríssima ordem. O talento que tem o Kadão de bem casar imagens e letrinhas, aliás, terá sido novidade apenas para gente desatenta como este cronista, que, sem saber o que estava perdendo, não vinha acompanhando seu Almanaque Gaúcho, página diária do jornal Zero Hora, de Porto Alegre, dedicada à história e à memória do Rio Grande do Sul, mas de interesse para lá de regional.

Ao contrário de tantas obras autobiográficas, o livro de Ricardo Chaves nem remotamente é louvação em causa própria. Nele não faltam, é verdade, relatos de belos feitos de um repórter fotográfico apaixonado e competente - caso da acidentada cobertura que fez da visita de João Paulo II à Polônia, na primeira viagem de Karol Wojtyla a seu país na condição de papa.

 

Kadão tem a virtude superior de expor, também, experiências menos bem-sucedidas, ou até cômicas, como a bobeada que o fez perder a espetaculosa chegada de Zélia Cardoso de Melo, estrela máxima do ministério de Fernando Collor, num restaurante de Nova York, no poleiro de uma charrete.

Tendo escapulido para comer alguma coisa, em companhia de uns colegas, o Kadão não estava ali para flagrar a cena. Na tentativa de mitigar o furo que iam tomar, os faltosos decidiram contratar outra charrete e pedir à ministra, na saída do jantar, que encenasse um bis. Problema: a única charrete disponível àquela altura era branca, e não preta, como a primeira. A ministra topou fazer o desembarque fake - e foi a bordo daquela cafonice sobre patas que os fotógrafos, às gargalhadas, voltaram para seu hotel.

Em circunstâncias menos estressantes, Kadão retratou expoentes dos mais diversos ramos e procedências, gente como Fidel Castro, Marcelo Mastroianni, Carlos Drummond de Andrade, Mario Vargas Llosa, Alfredo Volpi, Paulo Autran, Fernanda Montenegro, Gisele Bündchen, Cartola, Tom Jobim, Dorival Caymmi, Caetano Veloso, Chico Buarque e Astor Piazzolla. Tão galante quanto reconhecido, o autor quis que nessa galeria figurasse a Loraine, amor inoxidável que ele traz consigo desde os 20 anos, “porto seguro para o qual sempre voltei”.

 

Nem todas as fotos no livro foram feitas por Ricardo Chaves, mas também essas têm a ver com ele. Numa delas, clicada por Nico Esteves, Kadão é figurante numa cena espantosa, ocorrida no velório de Lupicínio Rodrigues. Em primeiro plano, ao lado do caixão, a viúva do compositor lasca um tapa nas fuças de uma senhorita.

 

Imagino que o fotógrafo ali estava também na condição de filho do jornalista Hamilton Chaves, companheiro de boemia do falecido. Quando o amigo ficou noivo de Nilce, Lupicínio levou à festa uma advertência musical: a canção Esses Moços, inspirada no passo matrimonial que seu camarada se dispusera a dar, e cujos versos aconselham os jovens a resistirem à tentação de amar, que significaria deixar “o céu por ser escuro” para ir “ao inferno à procura de luz”. Sorte nossa que o pai do Kadão não se rendeu às ponderações de Lupicínio. 

Saudavelmente moleque, o fotógrafo pediu a um colega, na Olimpíada de Sidney, na Austrália, que o retratasse no topo do pódio reservado aos vencedores do vôlei de praia. “É provável que eu tenha sido o único brasileiro que, em Sidney, esteve no lugar destinado a quem ganha a medalha de ouro”, conta o Kadão, que aos 66 anos não dá sinais de que vá aposentar a câmera e a irreverência. “Pretendo continuar me divertindo muito e brincando, inclusive (mas com todo o respeito), com ‘ela’[A MORTE], como fiz num bucólico cemitério andino quando, numa linda tarde ensolarada, encontrei uma cova aberta e desocupada. Me aguardem, sem pressa, por favor.” 

Kadão também não renuncia a uns prazeres onerosos, que não se resumem ao charuto e ao cachimbo: mesmo com próteses metálicas nos joelhos e quadris, ele não fala em apear da motocicleta, sobre a qual se aboletou pela primeira vez aos 20 anos, longe ainda de portar em si 130kg bem pesados. “E a satisfação de andar pelas ruas de Roma numa Lambretta?”, argumenta. “E subir a Serra, num dia lindo, numa moto Hornet 600, é coisa que deva ficar no passado? Vale o perigo? Sinceramente, não sei responder. E, o pior, acho que ninguém pode, ou deve, responder por mim.” 

Vai adiante o Kadão: “O sobrepeso, o equipamento volumoso pendurado nos ombros e no pescoço anos a fio... Mas onde ficam a espontaneidade e o prazer? É exclusividade dos mais jovens? Resisto... E me disponho a pagar o preço, alto, eu sei”.

(De repente, pensei naquele moço que, ouvindo uns versos graves de Lupicínio Rodrigues, amou a música e seguiu em frente.)

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