Sem pipoca nem refrigerante para empurrar, não dá

Pauline Kael, a grande crítica norte-americana, costumava dizer, de determinados filmes, que, se alguém quisesse levá-los a sério, deveria ter sua cabeça examinado. A série dos Fockers, por exemplo. O primeiro Entrando numa Fria, de 2000, baseava-se num pequeno filme de 1992. Era irregular, para dizer-se o mínimo, mas dava para rir com a história do enfermeiro intimidado pelo sogro, um ex-agente da CIA, que não o vê como o marido ideal para a filha.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

10 de janeiro de 2011 | 00h00

No segundo filme, a entrada da família de Ben Stiller - Dustin Hoffman e Barbra Streisand - esticou o que já vinha mais ou menos esgarçado do primeiro filme. Hoffman capoeirista, Barbra sexóloga, o diretor Jay Roach tentou reinventar a piada investindo pesado no sexo. O personagem de Robert De Niro era daquele jeito porque há tempos havia desviado para outra área o (des)interesse sexual, mas nada que a dra. Barbra Streisand (a personagem não é médica) não pudesse resolver com suas terapias de choque.

O terceiro, sob nova direção, insiste no sexo e incorpora não apenas um novo medicamente, tipo Viagra, sem contraindicação para cardíacos, como providencia logo de cara os dois ou três elementos que vão ser as novidades do relato. De Niro sofre um princípio de enfarte, que consegue evitar e Ben Stiller vê surgir na sua cola a sexy Jessica Alba, como a representante do laboratório que produz o tal medicamento (do qual ele e o sogro serão garotos-propaganda).

O terceiro elemento é o próximo aniversário do casal de gêmeos, filhos de Ben Stiller, o que traz de volta Owen Wilson como o eterno pretendente da sra. Focker, isto é, Teri Polo. Nada disso é novo - não mesmo - e Entrando Numa Fria Maior Ainda com a Família conta com a cumplicidade do espectador para seguir em frente. Como já conhece Greg Focker e Jack Byrnes, os personagens de Stiller e De Niro, o público sabe mais ou menos o que esperar e, na verdade, o filme vive mais da expectativa (frustrada) por novas piadas e situações do que por aquilo que realmente oferece,

Na entrevista acima, o diretor Chris Weitz conta dos constrangimentos que teve de enfrentar no set - a prótese peniana de De Niro - e até das oscilações do roteiro, que teve de reincorporar papai Focker, depois que Hoffman, desligado da produção, resolveu voltar. A cena em que ele volta, como dançarino de flamenco, é exemplar. Sem o ator, e o personagem, o novo Entrando numa Fria não estaria completo. Nada disso é para levar a sério, como diria Pauline Kael, e De Niro vai ter de elevar o grau de exigência para presidir o júri no próximo Festival de Cannes. Em matéria de sexo, há outra comédia em cartaz - a brasileira De Pernas para o Ar -, muito mais engraçada, como o público já descobriu. O filme é ruim, regular pelos atores. É um raro caso em que vale pipoca e refrigerante para "empurrar" a digestão.

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