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Sem pilantragem

Cheguei à casa de Raduan Nassar, certa manhã de 1989, e o encontrei sentado a uma bela mesa de imbuia, às voltas com papelada e lápis. “A-rrá!”, disse eu, “peguei você escrevendo!”

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2016 | 02h00

Nada disso, explicou ele; nada de novo sob o sol e sobre a mesa: estava procurando, sem sucesso, um equivalente em espanhol para a palavra “pilantra”, encravada em diversas passagens de Um Copo de Cólera. No gatilho, uma tradução que acabaria não saindo, pois o editor, alegando que a novela resultaria num volume magro demais, pediu 3 contos para engordar a lombada, com o que Raduan não concordou. O leitor de língua espanhola precisaria esperar até janeiro deste ano para sorver Um Copo de Cólera.

Como ficou “pilantra”? Peço uns parágrafos de paciência, chegaremos lá. Às vezes, penso que nem precisava traduzir, tão à vontade me pareceria estar essa palavrinha nossa (de origem desconhecida, informa o dicionário Houaiss) em boca hispânica: “¡Tu eres un pilantra!”.

Minha provocação, naquela manhã, fazia sentido para quem soubesse que Raduan se demitira da literatura mais de 10 anos antes, dando por completa – perfeita, em mais de um sentido, acrescento eu – uma obra tão louvada quanto diminuta, composta, àquela altura, pelo romance Lavoura Arcaica, de 1975, e Um Copo de Cólera, de 1978. Como disse (mas não cumpriu) João Cabral de Melo Neto em circunstância semelhante: fechou seu postigo. Digo àquela altura porque em 1997, instado por seu editor, Raduan tiraria da gaveta 4 histórias ainda mais antigas, às quais juntou uma quinta, escrita no ano anterior, num livrinho precioso que teria o título de uma delas, Menina a Caminho.

A aposentadoria literária desse grande autor – não sem ótimas razões contemplado agora com o Prêmio Camões, o mais prestigioso para quem escreve em língua portuguesa –, na verdade estava consumada em 1976, quando ele retomou os originais de Um Copo de Cólera, que em 1970 haviam baixado ao papel em apenas 15 dias, e, numa arrancada de 6 meses, arrematou a novela.

Perdeu-se desde então a conta das vezes em que Raduan Nassar precisou repetir que a demissão era sem volta. Como certos aposentados, porém, ele continuou a frequentar de quando em quando a repartição: mesmo disposto a não mais escrever, seguiu burilando seus escritos. Foi assim com Um Copo de Cólera, retocado até a 5.ª edição, multiplicada hoje em 19 reimpressões.

No caso de Lavoura Arcaica, Raduan fez alterações até a 3.ª edição, de 1989. Como sempre, nada de cirurgia radical. Retrabalhos de ourives. “Recolhi algumas palavras”, contou-me ele na ocasião, “não chegam a cinco.” Trocou umas poucas; “catar” virou “pegar”, por exemplo, e “lura” deu lugar a “esconderijo”. Mexeu também numas vírgulas. Cortou uns tantos possessivos e pronomes da primeira pessoa do singular. E só. A crer no que se lê na folha de rosto do romance, não mexeu mais naquela versão, reimpressa 32 vezes nos últimos 27 anos.

Sossegou? Nem tanto. Desconfio que Raduan Nassar, hoje com 80 anos, não sossegará jamais. No mínimo, vai estar de olho nas traduções de seus livros, sempre que tenha intimidade com o idioma, não sendo impossível que outro abelhudo dia desses o encontre, de lápis em punho, sentado à sua mesa de imbuia, à procura do melhor equivalente para alguma palavra da língua portuguesa. Torçamos para que novas buscas sejam menos árduas do que foi a de transpor “pilantra” para o espanhol.

A cargo do romancista mexicano Juan Pablo Villalobos (Festa no Covil, Se Vivêssemos em Um Lugar Normal e Te Vendo Um Cachorro), a tradução de Um Copo de Cólera empacou nessa palavra. Um dos grandes problemas, me disse Villalobos, foi exatamente “pilantra”. Como a novela seria distribuída também em toda a América Latina, era preciso encontrar aquilo que pudesse ser compreendido nos diversos países, o que demandou um mutirão envolvendo tradutor, editor e revisor. Nada de bater de primeira. Pilantragem zero.

Pelo menos 4 alternativas foram pesadas e descartadas, contou-me Villalobos – “culera” (“mexicano demais”), “hija de la chingada” (idem), “sinvergüenza” (“formal demais”) e “hija de puta” (“forte demais”) –, antes de fechar em “cabrona”. É “mais agressivo que pilantra”, admite ele, “mas funciona perfeitamente em espanhol durante uma briga, e contribui para criar o clima de crescente violência” que há em Um Copo de Cólera.

Pingado o punto final, pôde Juan Pablo descansar? Nada: está metido agora em nova encrenca, a tradução de Lavoura Arcaica, pois a primeira foi feita a partir de versão já superada. A caminho dos finalmentes, em setembro próximo ele estará em São Paulo, aboletado naquela mesa de imbuia, a escarafunchar cruciais minúcias em companhia do não menos exigente, rigoroso, implacável Raduan Nassar.

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