Marcos Arcoverde/Estadão
Marcos Arcoverde/Estadão

Sem perder a força

Lucélia Santos, musa de Nelson Rodrigues, será Frida Kahlo no teatro

Laura Greenhalgh - Enviada especial de O Estado de S. Paulo,

11 de maio de 2014 | 09h30

RIO - Ela vai botar o pé na estrada. De novo. Em se tratando de Lucélia Santos, cabe perguntar: que estrada? Há uma de que ela gosta muito, ligando sua casa num condomínio no bairro de Itanhangá, no Rio de Janeiro, a um dos pontos extremos da Floresta da Tijuca, rumo à Pedra da Gávea. "Como é que eu escalo a pedra? Com as patas, minha amiga, essas aqui", diz, crispando os dedos. Duas, três vezes por semana, lá vai Lucélia em direção ao maciço. Metade do caminho calçando chinelo de dedo. A outra metade, sapatos especiais. "Minha vida é isso: floresta, mar e pedra", resume com jeito incrivelmente jovial para os 57 anos incompletos. Mas há outras estradas a pisar: em breve, sairá em turnê pelo País com a peça A Falecida, de Nelson Rodrigues, começando por Rondônia, depois se apresentando nas cidades da Copa. E, em agosto, começa a ensaiar a peça Frida & Diego, texto inédito de Maria Adelaide Amaral, sob a direção de Eduardo Figueiredo.

Como se não bastasse a maratona nos palcos, semanas atrás a escaladora da Gávea protagonizou sem querer um dos maiores tititis na internet. Uma usuária de celular (dessas em grau de dependência, possivelmente) flagrou-a dentro de um ônibus urbano e postou a imagem na rede. "Como assim? Flagrou o quê? Por acaso eu não posso andar de ônibus?!", indigna-se a atriz, que não sabe dirigir. Sofreu bullying dos internautas pelo simples fato de estar no coletivo. Pois bem, via Twitter, Lucélia ensinou que este é o único país do mundo em que andar de ônibus tornou-se politicamente incorreto. Colheu apoios, muitos, vai até ser homenageada pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI). E promete fazer muito barulho em torno dos seus ideais de mobilidade urbana, conceito que virou moda, precisando virar realidade, urgentemente. Como dizia Nelson Rodrigues, com voz gutural, Lucélia Santos não é só uma mulher, é uma força da natureza.

De Zulmira para Frida

"Tô com frio. Vamos para a praia". Enrolada numa toalha, a atriz Lucélia Santos deixa o restaurante na Barra, atravessa a avenida perigosamente entre os carros - "tá vendo, não tem faixa pra pedestre!" - e deita-se na areia. Não sem antes receber as bênçãos de uma senhora, que a reconhece como Isaura. "Não tenho feito televisão porque não há convites. Sinto pena por esse público carinhoso, do qual precisei me afastar." Budista há anos, credita aos carmas inconciliáveis dela e da Globo seu sumiço do vídeo. Se pintar um bom convite, voltará sem mágoas para a emissora que exportou sua imagem para todos os continentes, sem nunca ter-lhe oferecido recompensa por isso - assim como não ofereceu ao exportar Sinhá Moça e Ciranda de Pedra, novelas que Lucélia também protagonizou. Mas A Escrava Isaura, adaptação de Gilberto Braga do romance de Bernardo Guimarães, é caso ímpar na história das séries televisivas no mundo. Só não foi vista na Índia porque Bollywood não deixou. No mais, a impressão que se tem é que todos os terráqueos choraram e torceram pela escrava branca.

"Fiz a Isaura em 1976, aos 18 anos. Até então havia estudado teatro com Eugênio Kusnet, e dá-lhe Stanislavski na cabeça, de modo que ainda não tinha a malandragem de TV. Isaura saiu aqui de dentro, como coisa minha", comenta sobre a personagem que a fez, para sempre, ídolo de bilhões de chineses. Mesmo fora do ar, embora livre o suficiente para pegar ônibus de cara lavada, Lucélia avalia ter tido a sorte de viver mulheres emblemáticas na carreira. Não só na tevê, mas no cinema, como Luz del Fuego, ou Maria Cecília, de Bonitinha Mas Ordinária, e Glória, de Álbum de Família, ambas, criaturas de Nelson Rodrigues, assim como Zulmira, de A Falecida, que faz no teatro. E é nos palcos que viverá outro papel marcante: a pintora Frida Kahlo, mulher do muralista mexicano Diego Rivera.

Maria Adelaide explora a turbulenta relação do casal de artistas, invocando figuras como o teórico marxista Leon Trotsky, de quem a exótica Frida foi amante. Lucélia leu o texto, feito desde o início para ela. Adorou. Aguarda a definição do ator que viverá Diego já se preparando para viver o sofrimento de Frida, vítima de poliomielite na infância e de um acidente de bonde que lhe perfurou o ventre, deixando-a entrevada por longo tempo numa cama de hospital. "Não posso imaginar as dores daquele corpo... ainda mais eu, uma atleta! Interpretar Frida exigirá de mim esforços internos, externos e até secretos, como dizem os budistas."

Também como budista, entende que as coisas da vida não acontecem por acaso e nem estão desconectadas. Seguindo por essa senda, admite que as pulsões e compulsões das personagens de Nelson Rodrigues de alguma forma a prepararam para encarar as dores de Frida.

Nelson, o mais genial e maldito dos nossos dramaturgos, caiu de amores por Lucélia quando ela vivia a cândida Isaura. Ele seguiu a novela. Chegava a perguntar para Gilberto Braga o que iria acontecer com a heroína nos capítulos seguintes. Mandava recados para a intérprete, bilhetes, juras de amor - "você é a minha Duse...", dizia, referindo-se à atriz italiana Eleonora Duse, outra força da natureza que tirava a grande Sarah Bernhardt do sério.

"Nós só nos encontramos no Presídio Frei Caneca, aqui no Rio. Eu ia lá para dar apoio aos presos políticos em greve de fome. Nelson ia para visitar Nelsinho, seu filho, que estava entre eles. Assim nos aproximamos", lembra. Eis que foi chamada para interpretar a protagonista de Bonitinha Mas Ordinária no cinema, contracenando com José Wilker e Vera Fischer, sob direção de Braz Chediak. Nelson chegou a ver a musa no set. Mandou bilhetinhos. Quando gravaram a cena crucial, em que Maria Cecília é violentada por um bando, ligou de madrugada para Lucélia para perguntar o que ela havia sentido - "como foi hoje, minha cara?". Queria também saber se ainda estava casada com o maestro (John Neschling), daí soltava um lacônico e enigmático"interessante...".

"Ele me enlouquecia e eu só tinha 23 anos! No fundo, Nelson é quem me dirigia no set, mesmo à distância." Será que Neschling, autor da trilha do filme, não terá segurado a barra de ver a sua (então) mulher chafurdando no submundo rodrigueano? "Não sei, só perguntando para o Johnny. O que sei é que meu filho nunca quis ver Bonitinha... respeito a decisão." A atriz e o maestro, de quem Lucélia fala com total admiração, viveram juntos 12 anos. Tiveram um filho, Pedro Neschling, hoje com 31. É ator, diretor e, se um mapa astral feito no seu nascimento der certo, deve se consolidar como autor. "Pedro gosta mesmo é de escrever", entrega a mãe.

No meio artístico, comenta-se que Lucélia teria sido boicotada na televisão pela estridência de suas causas - foi ativista ambiental, ao lado de Chico Mendes, e apoiadora do metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva na longa escalada para a presidência. "Será? Tantos colegas meus têm envolvimento político e estão na Globo... por que só eu estou fora? É carma mesmo." Imagina ainda que os autores tenham certa dificuldade em propor papéis para uma intérprete que alcançou um sucesso tão grande, talvez até estigmatizante, na teledramaturgia. Afinal, como criar uma personagem que supere Isaura? Seja como for, Lucélia sente-se hoje como que devolvida ao teatro, fonte original de sua obra.

"Estudei, me preparei e sempre quis ser atriz de teatro. Daí a Isaura chegou confundindo tudo. Mas meus modelos continuaram sendo Cacilda Becker, Tonia Carrero, todas elas. Tanto na tevê, quanto no cinema e no palco. Nunca me esqueci do Eugenio Kusnet dizendo que o ator tem que ter presença em cena. Hoje vejo que os jovens chegam muito despreparados para gravar uma novela ou fazer uma peça", comenta. Sua carreira como atriz de cinema vive compasso de espera - talvez aí sofra de outro estigma, o rodrigueano. Mostra-se satisfeita com Timor Lorosae, filme que dirigiu, sobre o massacre na ex-província indonésia. Mas o mesmo não diz de Destino, que produziu com recursos de Brasil e China - "o filme não deu certo...". Hoje, o caminho aberto é mesmo o do palco.

"É vida dura, um batidão. Ainda mais para mim, que acredito no teatro como arte itinerante, então é um tal de fazer mala, pegar avião, mais 300 km de estrada, hotel... Por que me ponho a viajar tanto? Porque não sou atriz burguesinha que só faz teatro no Leblon!". Eis a força da natureza se manifestando.

Praticamente já se despede da impressionável Zulmira, de A Falecida, para entrar no corpo doído de Frida, a libertária que no entanto era capaz de preparar o prato predileto do marido, para que ele o saboreasse no estúdio. "Entendo a Frida... também tenho esse lado mulherzinha." Maria Lucélia dos Santos parece tirar de letra esse trânsito de vidas emprestadas. Só lamenta o teatro afastá-la da floresta e da pedra. Sente falta das caminhadas. Algumas vezes regressa delas com um saco de lixo cheio até a boca. "Voltamos recolhendo as porcarias que as pessoas deixam pelo caminho. Por que aquela mulher não vem me fotografar aqui, e não no busão? Por que não vem ver a degradação desse lugar? Cadê as autoridades?". Lucélia promete azucrinar nos próximos tempos. Agora é também uma militante urbana - "me aguentem".

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