Sem lugar próprio na cena da história

Biografia reforça inexpressividade de Eva Braun, a sra. Hitler

Luiz Nazario, O Estado de S.Paulo

18 Junho 2011 | 00h00

Seguindo uma tendência da historiografia alemã, de reinserir no panteão da História toda a galeria dos criminosos de massa do nazismo, à maneira do filme A Queda (2004), de Oliver Hirschbiegel, com seu singelo crédito final dando conta do destino de seus "heróis", Heike Görtemaker dispôs-se a resgatar a vida da suposta amante de Hitler. Uma tarefa bastante ingrata. Afinal, como biografar uma nulidade? E mais: para quê? Nenhum feminismo justifica a empreitada de Heike Görtemaker, de tentar "virar a mesa" da historiografia clássica, que ressaltou a insignificância de Eva Braun. Tanto mais que, apesar da intensa pesquisa - as notas ocupam 100 das 400 páginas do livro -, ela nada encontrou que modificasse o quadro.

É que Eva Braun tinha para Hitler a mesma importância que Blondi, seu pastor alemão predileto, no qual ele testou o veneno que daria à "amante" no dia seguinte, a 30 de abril de 1945, quando ambos se mataram no bunker cercado pelo Exército Vermelho. Embora Heike Görtemaker tente provar que Eva Braun seria bem mais que uma criatura fútil deslumbrada por um poder criminoso, só conseguiu reforçar a tolice de sua personagem, cuja vida se resumiu a esperar carinho do ditador, que a tratava como cadela de estimação.

Ao contrário do que a autora sugere, o sonho de Eva Braun era viver burguesamente casada com Hitler após sua "aposentadoria", no planejado palacete de Linz. Mas o ditador só se casou com a "amante" ao ter certeza de que ela se mataria com ele após a cerimônia. Ditou à secretária Traudl Jung em seu testamento: "Como, nos anos de luta, eu não me julgava em condições de contrair matrimônio, agora, no fim desta trajetória terrena, decidi desposar a moça que, depois de muitos anos de leal amizade, entrou na cidade já quase sitiada para compartilhar seu destino com o meu. Por desejo meu, é na qualidade de esposa que ela vai comigo para a morte". Embora a razão disso seja óbvia, Heike Görtemaker nega - sem provas - o proclamado platonismo da relação de Hitler com Eva Braun.

Alheia aos problemas sexuais de Hitler e à visão moralista que o futuro ditador expôs na juventude a August Kubizek do amor como "Chama da Vida", exigindo a manutenção da virgindade dos amantes até o casamento, Görtemaker acredita que Hitler fazia sexo com Eva Braun, afastando a partir desse parti pris os testemunhos contrários como intrigas da oposição. Assim interpretando a relação entre o ditador e sua "leal amiga", a autora preserva o mito da masculinidade de Hitler (contestada em diversas obras) e não percebe o horror da vida de sua "heroína", jovem vulgar e cheia de saúde, cegamente apaixonada pelo antissemita repugnante, sonhando com o casamento, mas mantida insatisfeita e estéril sob a vigilância da Gestapo, sem possibilidade de trair, para aliviar a tensão, o poderoso "amante" impotente.

Mas é esse drama digno do mais vetusto romance naturalista "picante" do século 19, atualizado para um universo totalitário de arames farpados e filmes nazistas apreciados com entusiasmo toda noite após o delicioso jantar com assassinos de massa, que explica a histeria apática de Eva Braun, suas duas tentativas de suicídio, seu frequente mau humor e sua distração medíocre de fazedora de álbuns da vida privada com Hitler. Fotógrafa amadora, cujos filmes coloridos em 16 mm rodados em Obersalzberg foram retomados nos controversos documentários Swastika (1974), de Philippe Mora, e Hitler, Eine Karriere (1977), de Joachim Fest, Eva Braun exibia no "ninho de águia" constrangedora ascendência sobre o homem mais amado e temido da Alemanha, refletindo no microcosmo do Berghof o regime nazista de sadomasoquismo coletivo. O raivoso ditador (o "bondoso Hitler" na propaganda de Goebbels), que se recusava a ficar nu até em exames médicos, sentia-se vulnerável diante da "tolinha" que amava: sabendo demais sobre sua intimidade, ela era alijada dos festejos públicos, excluída das recepções oficiais, isolada do mundo exterior.

Por isso também a indiferença patológica de Eva Braun em relação ao sofrimento alheio e ao seu próprio desgraçado fim: depois de viver no luxo sórdido de um poder criminoso, sonhando em vão com uma existência burguesa, a claustrofóbica antessala do inferno que foram as últimas semanas no fétido Führerbunker de Berlim a fez quase feliz, ligando-a definitivamente ao seu dono - em franca degeneração física e mental: "Estou no lucro", ela afirmou. Ao se matar aos 33 anos, após uma vida de "primeira-dama" oculta, ciumeiras palacianas e torpes fantasias românticas alimentadas pelo amado carniceiro - um vazio moral bem retratado em Moloch (2000), de Aleksander Sokurov - Eva Braun não "assegurou para si um lugar na História, ainda que duvidoso", como quer Heike Görtemaker, mas sim um não lugar, incapaz de render uma biografia exclusiva, já que a quase totalidade das páginas de Eva Braun, A Vida com Hitler nem é dedicada a ela, mas ao ditador genocida e seu círculo íntimo de assassinos de massa.

LUIZ NAZARIO É PROFESSOR DE HISTÓRIA DO

CINEMA DA UFMG, AUTOR, ENTRE OUTROS, DE

TODOS OS CORPOS DE PASOLINI (PERSPECTIVA)

E PESQUISADOR BOLSISTA DE PRODUTIVIDADE DO CNPQ COM O PROJETO CINEMA E HOLOCAUSTO

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.