Imagem Sérgio Augusto
Colunista
Sérgio Augusto
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Sem futuro

Quero crer que a cli-fi seja a vertente ficcional mais urgente, a literatura da sobrevivência

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2019 | 03h00

Quando escreveu A Morte e o Meteoro, o mato-grossense Joca Reiners Terron imaginou a Amazônia destruída, com dezenas de hectares de “árvores agonizantes em vias de serem calcinadas pelo sol”. Quando o romance saiu pela Todavia e começou a ser elogiado, a Amazônia real ainda existia, mas, em vez de calcinada pelo sol, parecia condenada a morrer carbonizada por queimadas. Causa mortis à parte, A Morte e o Meteoro foi a mais destacada contribuição da literatura brasileira à cli-fi deste ano.

Se você leu ou falou “clifi”, assim como se escreve ou quase se pronuncia o sobrenome de Montgomery Clift, acho melhor explicar primeiro o que cli-fi (leia-se “clai-fai”) quer dizer. Cli, de climate (clima, em inglês); fi, de fiction. É um ramo da ficção científica, como as distopias. Expressão criada seis anos atrás por um ex-jornalista e professor de inglês chamado Dan Bloom, suas narrativas partem de situações e conflitos causados, agudizados ou permeados pelo aquecimento global e suas consequências climáticas, sociais, econômicas e psicológicas. 

Uma das consequências da destruição da Amazônia, no romance de Terron, é o êxodo de 50 indígenas da tribo dos kaajapukugi, levados por um sertanista para Oaxaca, no México, como refugiados políticos. Esqueça as óbvias conotações bíblicas. Suas ressonâncias históricas, culturais e políticas são mais relevantes. Oaxaca era a terra dos zapotecas e mixtecas, lá nasceu Benito Juárez, o herói fundador da república mexicana. A diáspora mundial em curso é uma coda do Holocausto colonialista e também um dos subprodutos do apocalipse climático.

Assim como existe a cli-fi, existe a cli-nonfi: livros não ficcionais sobre os flagelos do Antropoceno, ou seja as desgraças resultantes da influência do ser humano nos sistemas atmosférico e climático da Terra. O melhor da especialidade aqui publicado este ano foi escrito pelo jornalista David Wallace-Wells, expert em tecnologia e meio ambiente: A Terra Inabitável - Uma História do Futuro (Cia. das Letras). 

Wallace-Wells inicia seu balanço do lento ecocídio global com uma advertência (“É pior, muito pior do que você imagina”) e estende seu bem documentado alarmismo por trezentas e tantas páginas, ao longo das quais desqualifica várias ilusões reconfortantes - o aquecimento global é uma saga ártica, remotamente localizada, e a elevação do nível do mar só diz respeito a quem habita o litoral - que lhe soam tão perniciosas quanto a negação da mudança climática. 

Às páginas tantas, o autor pergunta qual é “o sentido de nos entretermos com um apocalipse fictício quando enfrentamos a possibilidade de um real”. Ele próprio responde: oferecer distração, sublimação e catarse é uma das funções da cultura pop e da literatura, “uma forma de profilaxia emocional” capaz de nos persuadir de que podemos sobreviver ao armagedon climático e, em muitos casos, nos ensinar como fazê-lo.

Quero crer que a cli-fi seja a vertente ficcional mais urgente e engajada do nosso tempo, a literatura da sobrevivência, acima e além das ideologias. Incomparavelmente mais urgente do que no tempo de Jules Verne, quando ele imaginou os efeitos de uma inclinação do eixo da Terra sobre o clima do planeta, num romance sobre a compra do Polo Norte, e anteviu uma súbita e brutal queda de temperatura em Paris, com um século de antecedência. 

Na década de 60, a temperatura em Paris não baixou além da média. E no verão deste ano, subiu a graus inimagináveis. Verne especulava, trabalhava exclusivamente com a imaginação e expectativas do momento. Os cli-ficcionistas de hoje operam com perigos reais e imediatos, com as catástrofes do presente: tempestades de proporções bíblicas, furacões, inundações, calor escaldante, escassez de água, degelo polar, elevação dos oceanos, desertificação galopante. 

Alguns desses temas inspiram os relatos, em geral elegíacos, de uma coletânea de narrativas curtas digitais, intitulada Warmer (Mais quente), que a Amazon, num “esforço de biodiversidade literária”, lançou recentemente, com romancistas experientes e de qualidade, embora sem vínculos com esse gênero de ficção, como Jane Smiley, Lauren Groff e Jess Walter. 

A revista cultural online Guernica dedicou sua edição de março ao afluxo da cli-fi, que há mais tempo, aliás, ganhou na internet uma página mensal, assinada por Amy Brady, cujo nome, Burning Worlds (Mundos em chamas), parece até provocação com o nosso atual ministro do Meio Ambiente. Brady montou parceria com a Climate Connections da Yale e acompanha toda a produção literária e ensaística voltada para a questão ambiental. É a melhor guia pelo universo cli-fi.

Ainda não surgiu um novo J.G. Ballard, uma nova Margaret Atwood, mas é bom ficar atento. Interessei-me, inicialmente, pelas experiências de Groff e Louise Erdrich. Em Future Home of the Living Dead (Futuro lar dos mortos vivos), Erdrich nos revela um mundo em que as estações do ano desapareceram e a evolução natural da espécie começa a retroceder. Groff mexe com uma questão filosófica e existencial de suma importância, em Boca Raton: vale a pena ter filho neste começo do fim do mundo? E que nos remete a The Way the World Ends (Como o mundo acaba), de Jess Walter, em que, a certa altura, um garoto reclama: “Uma coisa é ouvir adultos dizerem que Papai Noel não existe, mas é duro ouvi-los dizer que o futuro não existe”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.