Sem filmes, o que seria dos mestres?

Nos anos 50 o jazz entrou direto nas trilhas de filmes, a partir de O Selvagem, de Marlon Brando

Roberto Muggiati, O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2010 | 00h00

Meu colega de Ouvido Absoluto, Gilberto Mendes, levantou a lebre das trilhas sonoras em seu último artigo. Sinto-me obrigado a entrar na dança, devido à relação especialíssima entre o jazz e o cinema. Ambos nasceram juntos no século 20. O primeiro filme sonoro foi O Cantor de Jazz (1927) - filho de um cantor de sinagoga, Al Jolson cai aos berros no vaudeville, a cara pintada de preto. Nos primeiros anos dos talkies, as trilhas eram feitas por eruditos fugidos da Europa ou semieruditos americanos. Em pouco tempo, autores de standards também entraram no jogo.

Vou começar pelas músicas de filmes que mais atraíram os jazzistas. I Cover the Waterfront, de 1933 (o filme tem uma cena de Claudette Clobert quase nua), tornou-se um clássico do repertório de Billie Holiday e do pianista Art Tatum. Uma das canções mais tocadas no jazz é Softly as in A Morning Sunrise, de Sigmund Romberg e Oscar Hammerstein II. Da opereta New Moon, passou para a tela em 1940, cantada por Nelson Eddy (é hilário, confiram no YouTube). Como Lover Come Back To Me, outro tema do filme, Softly mereceu dezenas de gravações, de Stan Getz e Art Pepper a John Coltrane e Eric Dolphy, e - apesar dos pleonásticos morning sunrise e evening sunset - de cantores como Bobby Darin, June Christie, Abbey Lincoln e Dianne Reeves. Laura, do filme homônimo de 1946, foi logo gravada por Charlie Parker (com orquestra de cordas), e o jazz inteiro seguiu o voo de Bird. Seu autor, David Raksin, compôs também as belas baladas Love Is For the Very Young e A Song After Sundown - de The Bad and the Beautiful (Minnelli) e Too Late Blues (Cassavetes) - imortalizadas na gravação de Stan Getz com a orquestra Boston Pops de Arthur Fiedler. Bronislau Kaper, nascido na Polônia, compôs o intrigante Invitation e o tema foi adotado até por feras da fusion, como Michael Brecker e Jaco Pastorious. Kaper assinou ainda outro favorito do jazz, Green Dolphin Street, para um dramalhão de época com Lana Turner. Dolphin Street mereceu várias gravações de Bill Evans, um sensível garimpeiro da música de filmes. Podemos usar o pianista como cursor para citar algumas canções: The Days of Wine and Roses, de Henry Mancini; Spartacus Love Song, de Alfred North; de Kaper, além de Invitation, Bill gravou Hi Lili, Hi Lo; de Johnny Mandel, o tema de M.A.S.H. /Suicide Is Painless (a letra rendeu US$ 1 milhão a Mike, de 14 anos, filho do diretor Robert Alman, que só ganhou US$ 70 mil pelo filme inteiro. Mandel compôs também The Shadow of Your Smile, e o jazz agradeceu.) Outra que Bill Evans adorava, e gravou com o cantor Tony Bennett, é My Foolish Heart, do filme de Mark Robson baseado no único texto que J.D. Salinger liberou para o cinema, o conto Uncle Wiggily in Connecticut. Vale lembrar que o trompetista Clifford Brown transformou em hard bop o tema kitsch de Sansão e Dalila, de Victor Young, e gravou com orquestra de cordas Portrait of Jenny, do filme mediúnico com Jennifer Jones e Joseph Cotten (a canção, pós-filme, virou hit de Nat King Cole).

Já nos anos 50 o jazz entrou direto nas trilhas, a partir de O Selvagem, de Marlon Brando, com o score eletrizante de Shorty Rogers, que também contribuiu na trilha de O Homem do Braço de Ouro, em que Sinatra vive um baterista drogado. Sweet Smell of Sucess enfoca um guitarrista do Chico Hamilton Quintet, que aparece no filme. Duke Ellington também assina a trilha e participa em Anatomia de Um Crime e Paris Blues, este com uma ponta de Louis Armstrong, que aparece com destaque em Alta Sociedade. O saxofonista Gerry Mulligan toca em Quero Viver e tem até um papel dramático em Os Subterrâneos da Noite, baseado no romance de Kerouac, com uma bela trilha de jazz de André Previn.

Não se pode omitir a série de cinebiografias de músicos: Glenn Miller (James Stewart), Benny Goodman (Steve Allen), Gene Krupa (Sal Mineo) e Charlie Parker (Forrest Whitaker); e, veladamente, Bix Beiderbecke, em Êxito Fugaz, dirigido por Michael Curtiz, com Kirk Douglas dublado ao trompete por Harry James. Mas foram os franceses que elevaram as trilhas de jazz ao status de obra de arte com Sait-on Jamais (Vadim & Modern Jazz Quartet), Ascensor para o Cadafalso (Malle & Miles), As Ligações Amorosas (Vadim & Art Blackey-Monk) e Acossado (Godard & Martial Solal). Sim, e O Último Tango em Paris, de Bertolucci, com a trilha de Gato Barbieri.

Sei que muito ficou de fora, mas o essencial está aí. Para fechar, uma saudação ao filme que funde as vidas de Bud Powell e Lester Young, Round Midnight, de Bertrand Tavernier, um autêntico hino de amor ao jazz.

ROBERTO MUGGIATI É PESQUISADOR, MÚSICO E ESCRITOR, AUTOR DO LIVRO BLUES - DA LAMA À FAMA

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