Sem Crise

Para diretor artístico, relação entre Tortelier e Osesp ''nunca esteve melhor''

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2010 | 00h00

O diretor artístico da Sinfônica do Estado de São Paulo Arthur Nestrovski negou que exista uma crise entre os músicos da orquestra e o regente titular Yan Pascal Tortelier. Para ele, as declarações recentes do maestro - que criticou a resistência dos artistas a seu trabalho e o excesso de jogos políticos internos - são um "não assunto". "As relações entre os músicos e o maestro Tortelier desde o início da turnê estão melhores do que nunca."

Desde sábado passado, a Osesp está viajando pela Europa, onde se apresenta em doze cidades, entre elas Viena e Madri. Antes de deixar São Paulo, o maestro Tortelier deu uma entrevista a um jornalista alemão na qual reclamava do que chamava de "certa resistência, relutância, ou mesmo desconforto" dos músicos com relação a seu trabalho; também fazia críticas ao estágio artístico do grupo, que estaria ainda muito preso ao método de trabalho de seu predecessor, John Neschling, e ao excesso de "jogos políticos".

A entrevista foi concedida na manhã do dia 29, em São Paulo. Na noite anterior, maestro e orquestra haviam feito o primeiro dos concertos de despedida do público paulistano, antes da viagem à Europa. "Tortelier falou no calor do momento, após um concerto que o deixou frustrado, no contexto natural de ansiedade que antecede uma turnê", diz Nestrovski. "Antes mesmo de suas declarações serem publicadas, ele já havia conversado com a orquestra, explicando que havia falado no calor da hora e dizendo que não valia a pena eles perderem tempo com isso."

Depois da conversa, diz Nestrovski, "o assunto foi esquecido". "Seria irreal imaginar que não existe tensão na relação entre maestro e orquestra, mas isto definitivamente não é fundamental na vida da orquestra. Esse assunto aqui não existe. Tudo está bem e a prova é o resultado artístico da turnê. A apresentação em Viena, por exemplo, não foi apenas excelente - está entre os melhores concertos da história da orquestra." Sobre as críticas feitas por músicos à falta de envolvimento de Tortelier com a orquestra, Nestrovski também acredita ser importante "relativizar aquilo que é dito no calor do momento."

O diretor artístico da Osesp não vê contradições entre opiniões de Tortelier e o modelo de gestão buscado pela orquestra, que inclui a divisão de poder na área artística entre um diretor e um maestro - na entrevista, ele diz que a orquestra parece sentir falta de um acompanhamento maior por parte de um regente titular. "Essa é uma opinião dele e não faz sentido eu ficar dando voltas em torno desse assunto. É claro que a intenção é ter um maestro com mais espaço na agenda, que possa estar em São Paulo cerca de 10 ou 12 semanas, não apenas para reger mas para participar de outras atividades, como a confecção das temporadas, e se envolver mais com a vida cultural da cidade. Mas escolhas como essa não podem ser feitas em duas semanas. Você leva um ano para atrair um regente. Ele vem, trabalha com a Osesp; demora mais um ano, um ano e meio, para voltar. São quase três anos de contato antes que você possa fazer um convite. É preciso ter a maturidade de saber esperar. E, até lá, que fiquem todos tranquilos: o mundo não vai cair."

Segundo Nestrovski, há vários modelos sendo estudados. "Podemos ter um titular, mas também pensamos em duas pessoas, um titular e um associado, ou um titular e um regente convidado principal. Há todo um elenco de possibilidades sendo consideradas. De qualquer forma, precisa ser alguém que a orquestra respeite, que se comprometa com o grupo, que traga repercussão internacional a ele."

Sobre a decisão da fundação de não ter um maestro titular que também seja diretor artístico, Nestrovski acredita que o modelo tem dado certo. "Quando cheguei, no começo do ano, havia muita dúvida sobre como as coisas iriam funcionar. Com o tempo, porém, ficou claro que o modelo é esse, não há mais discussão. E os resultados estão aí para quem quiser ver. Estamos terminando uma bela temporada 2010, acabamos de anunciar uma promissora temporada 2011 e há ainda mais novidades sendo pensadas para 2012."

Entre as novidades, Nestrovski ressalta a presença do compositor transversal, que terá obras apresentadas ao longo de todo ano, e o maior diálogo entre os concertos sinfônicos e a temporada de música de câmara. Ele anunciou também um projeto de gravações de obras de compositores brasileiros vivos - em 2011, será registrado um CD com obras de Gilberto Mendes e, no ano seguinte, um álbum dedicado a Almeida Prado. "Vamos ampliar também a atividade intelectual em torno da orquestra. Além das palestras sobre música, vamos sediar a série Fronteiras do Pensamento, que ajuda a mostrar que a música não é uma bolha isolada e pode se relacionar com outras questões importantes do nosso tempo."

Para Nestrovski, não procede a crítica de que a Osesp está trabalhando demais - além dos concertos sinfônicos de câmara, o grupo tem se apresentado no interior, em séries didáticas e em horários alternativos na Sala São Paulo. "Alguns músicos já me procuraram para falar disso e, de fato, com relação aos últimos anos, houve um aumento. Estamos no máximo de nossas possibilidades, mas não perdemos a medida. Em 2011, por exemplo, haverá semanas de folgas para a orquestra. Mas a demanda por viagens pelo interior e projetos educacionais é justa. Ainda que os concertos sejam nossa prioridade, nenhuma orquestra do mundo sobrevive sem desenvolver esses laços com a sociedade."

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