Sem 'Cidade de Deus', não haveria 'Tropa', diz Padilha no Rio

Em coletiva, diretor lembra longa de Meirelles e fala sobre o prêmio Urso de Ouro do Festival de Berlim

Roberta Pennafort, de O Estado de S. Paulo,

18 Fevereiro 2008 | 17h04

Impulsionado pelo Urso de Ouro ganho no Festival de Berlim, o filme Tropa de Elite voltará às salas de cinema de São Paulo, do Rio de Janeiro e de Brasília na sexta-feira, 22. A novidade foi anunciada nesta segunda-feira, 18, em uma entrevista coletiva que reuniu, pela primeira vez depois do anúncio do prêmio, o diretor, José Padilha, o produtor, Marcos Prado, e o elenco principal. Na coletiva, Padilha citou o sucesso de Central do Brasil, de Walter Salles, e lembrou da produção de Meirelles, Cidade de Deus. "Se não existisse Cidade de Deus, Tropa de Elite não existiria", declarou o diretor.   Padilha classifica crítica de 'ignorante'   Com aparência cansada, mas rindo à toa, Padilha, que chegou da Alemanha no domingo, falou para uma platéia lotada de jornalistas. Na mesa cheia de microfones, um detalhe de cerca de vinte centímetros fazia toda a diferença: o reluzente Urso de Ouro, que agora ornamenta o quarto do filho do diretor. "Tenho que voltar logo pra casa e devolver pra ele", brincou. Wagner Moura, que faz o personagem Capitão Nascimento, foi o único que não pôde participar da entrevista, porque está em meio aos ensaios da peça Hamlet.     Depois de dias e dias de entrevistas para a imprensa brasileira em Berlim e para jornalistas estrangeiros, ele reafirmou seu orgulho por ter recebido a láurea de um júri presidido por Constantin Costra-Gravas e lembrou a filiação de Tropa a Cidade de Deus, de Fernando Meirelles (2002).   Padilha - que já vinha sendo sondado para filmar no exterior desde que lançou o documentário Ônibus 174 - não acha que seu filme irá, necessariamente, repetir a carreira internacional de Central do Brasil (há dez anos, o filme conquistou o primeiro Urso de Ouro brasileiro e concorreu ao Oscar em duas categorias). Já com o longa de Meirelles, Cidade de Deus, a relação é mais próxima. Padilha afirmou que as duas produções têm "jeitos de filmar" parecidos.   Elogiado o tempo todo pelos atores presentes (Caio Junqueira, André Ramiro, Fernando Machado, Maria Ribeiro e Fernanda de Freitas), Padilha contou que, durante o festival, as críticas que chegaram a seus ouvidos (à exceção da publicada pela revista americana Variety, que chamou o filme de fascista) foram positivas, o que o deixou animado.   Mesmo concorrendo com o superbadalado Sangue Negro (de Paul Thomas Anderson, com Daniel Day-Lewis), ele estava otimista, e suas esperanças cresceram quando recebeu um telefonema da organização avisando que Tropa tinha ganho um prêmio. Mas qual deles? Isso ele só saberia ao fim da cerimônia de premiação. "São oito prêmios e o Urso de Ouro é o último. Então você fica o tempo inteiro torcendo: `tomara que eu perca esse prêmio'. É uma espécie de tortura psicológica", riu. O estreante André Ramiro, o Matias, acompanhou tudo do Rio. "Eu decidi abstrair! O prêmio é muito legal. Isso me ajuda a querer estudar. O peso da responsabilidade aumenta."   José Padilha discorda da idéia de que o filme possa ajudar a perpetuar, no exterior, a imagem do Rio e do Brasil como um lugar violento. "Cidade de Deus, Notícias de uma Guerra Patricular, Tropa de Elite e Carandiru são filmes amigos do Brasil, no sentido de que colocam problemas brasileiros e ajudam e pressionam a classe política a fazer alguma coisa. O problema da violência urbana no Brasil é a violência urbana no Brasil, não é o Tropa."   Tropa não entrou na disputa pelo Oscar de melhor filme estrangeiro deste ano, mas poderá concorrer em outras categorias, no ano que vem. Na semana que vem, chega às lojas o DVD do filme - já sai com 150 mil cópias pré-vendidas. A transformação do filme em série de TV ainda está sendo negociada, segundo Padilha.

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