Sem Carminha, viva as mil e uma noites

Isolo-me em uma mesa do bar Vianna, vizinho à minha casa, e ali ninguém me incomoda, fico o tempo que quiser, indiferente às conversas, gritos, falas, barulhos, tomando um chope black de espuma densa. Leio jornais, levo livros, escrevo. As pessoas ficam assombradas ao me ver escrevendo à mão em cadernos. Semana passada, terminado parte do julgamento do mensalão, sentei-me e mergulhei na tristeza. Porque, à medida que os juízes desfilavam a enorme patranha organizada pelo PT, fui pensando que Dirceu, Genoino e Delúbio venderam um de nossos sonhos mais caros, o da mudança do Brasil, da ética, de um Brasil melhor. É grave quando as pessoas têm seus sonhos estilhaçados e suas esperanças e utopias vendidas, desfeitas. Um bando de Carminhas e Max sem escrúpulos e sem pudor. E o ex-presidente em quem votei duas vezes dizendo: nada existe, é farsa. Nessa hora lembrei-me daquele personagem do Jô Soares que repetia o bordão, tornado célebre: "Tem pai que é cego". Diz o provérbio: pior cego é o que não quer ver. Mais triste fiquei ao pensar que tantos jovens que seguiram Dirceu e Genoino, numa época mais honrosa e idealista, ficaram à beira do caminho, morreram nas prisões, desapareceram, foram torturados, exilados.

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

19 Outubro 2012 | 03h01

Salto para coisas mais agradáveis. Mergulho na fantasia. Ainda que o mensalão nos pareça uma impressionante fantasia criada por mentes sórdidas. Salto para dentro do quarto e último volume do Livro das Mil e Uma Noites, na tradução digna, honesta, poética e gigantesca de Mamede Mustafa Jarouche. Há sete anos saiu o primeiro volume. Do segundo, tive a honra de participar (sem medo do clichê), porque escrevi o texto da quarta capa. Os outros textos foram escritos por Milton Hatoum, Ferreira Gullar e Alberto Mussa; um privilégio tal companhia.

O Livro das Mil e Uma Noites faz parte da minha história de vida e formação. Desde os 6 anos, quando aprendi a ler, meu pai e minhas professoras Lourdes e Ruth me davam pequenos livros da editora Melhoramentos que traziam as histórias de Aladim, Ali Babá, o Mercador e o Gênio, Simbad, o Marujo e outras. Um dia, meu pai apareceu com uma edição das Mil e Uma Noites, na tradução de Galante, se não me engano. Um deslumbramento. Ali estava reunido tudo: califas, sultões, belas princesas, grutas tenebrosas, bruxas, feiticeiras, duendes, gênios, lâmpadas, vizires, tapetes voadores, fadas, anões, aventureiros, salteadores, ladrões, mágicos, gigantes, castelos, portas falsas, quartos onde era proibido entrar, tesouros escondidos, baús repletos de ouro e joias.

Aquele livro desencadeou um imaginário avassalador. A vida nunca mais foi a mesma. Por trás da realidade havia um mundo oculto e encantado onde tudo era possível. Nele eu podia me refugiar das dores e mazelas da vida real, da pobreza, das notas baixas na escola. O cotidiano era um conjunto de momentos pobres, prosaicos, pífios. Daqueles livros mergulhei em outros que me conduziram aos saltos para a realidade, o palpável, ao meu entorno concreto.

Quando nos anos 70 todos tomavam drogas, LSD e outras pílulas, eu dizia: "Já vivi tudo isso. Já li as mil e uma noites". Eram sensações idênticas, porque tanto as histórias como as químicas nos levavam para fora deste mundo rotineiro e insensato. Nesta mesa do Vianna penso em Jarouche traduzindo, viajando, buscando manuscritos, compêndios, num trabalho fanático, porque somente um fanático obsessivo faria o que ele fez, para nos devolver a riqueza do Livro das Mil e Uma Noites, destroçado por traduções censuradas, castradas, hipócritas, moralistas. Tive uma surpresa. Até dom Pedro II foi um dos tradutores desta Avenida Brasil milenar e oriental em suas idas e vindas, voltas e reviravoltas, surpresas e safadezas.

Pensar que nenhuma tradução jamais falou no "manjericão das pontes", que toda mulher tem, e todo homem cobiça. Ou o sésamo descascado. Ou a pensão de Abu Masrur. Jarouche nos desvendou um mundo de fascínio, desejo, aventuras, loucuras, medo, terror, mortes, festas, mistérios, banquetes opíparos (sempre quis usar esse termo). Há no livro apenas mil noites. Ou a última nós é que a escrevemos, descrevemos, sem Sherazade, ou na verdade Sahrazad? Este livro chega na hora exata para preenchermos o vácuo que virá com as noites sem gente esplêndida como Adriana Esteves, Marcos Caruso, Murilo Benício, Eliane Giardini, Heloisa Perissé. Chega de novelas, dediquemo-nos à boa leitura.

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