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Selvagens?

O encontro com o ‘outro’ (nas suas mais diversas faces) é marcado pela corda bamba

Roberto DaMatta, O Estado de S. Paulo

28 Novembro 2018 | 02h00

Escrevo debaixo do impacto da notícia que nativos da ilha Sentinela do Norte, situada no arquipélago Andamã, na imensa Baía de Bengala, mataram a flechadas um missionário americano de 26 anos, que, solitariamente, tentava levar a “selvagens pagãos” a palavra de Jesus Cristo.

Num mundo que dizem não ser mais o mesmo, conforta-me saber que ainda existam missionários imbuídos de ideal cristão e “selvagens” que recusam o contato com o “mundo” reduzido ao “Ocidente” consumista euroianque. Num certo sentido, é um alívio de alta ambiguidade descobrir que ainda temos, de um lado, a caridosa palavra universal de Cristo; e, do outro, a fidelidade a um estilo de vida ancorado numa trágica experiência colonial com o império britânico.

A notícia me enviou de imediato ao “arcaico” que insiste em voltar ao lado da nossa onipotência digital. Em seguida, eu imediatamente tirei da minha estante o livro The Andaman Islanders, escrito em 1909 pelo outrora famoso antropólogo inglês A.R. Radcliffe-Brown (que teve uma passagem memorável pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo) e que foi uma figura básica na formação do funcional estruturalismo por oposição ao viés histórico quando, por exemplo, ele pergunta mais sobre o significado da propriedade, da família e do Estado, em vez de especular sobre suas origens. Estou com o livro ao meu lado e aprendo que Radcliffe-Brown tinha 25 quando fez sua pesquisa nesse local isolado do mundo.

Foi com a mesma idade que eu também comecei a estudar a disciplina dos contatos e olhares culturais (vulgarmente conhecida antropologia cultural ou social) quando, em 1959, fui estagiário de Roberto Cardoso de Oliveira na Divisão de Antropologia do Museu Nacional. Esse gabinete de curiosidades que a nossa aversão ao intelecto comprometido com a pesquisa deixou virar cinzas. No ano seguinte, no curso de Teoria e Pesquisa em Antropologia Social, desenvolvido e corajosamente ministrado pelo mesmo professor, li muito os ensaios do mestre Radcliffe-Brown.

Foi nessa época que tomei conhecimento da parábola impressa nos encontros interculturais. Nela, você é alvo de uma ambiguidade de altíssima voltagem e simultaneamente o centro de curiosidade, agressão, amizade e resistência. Em toda visita solitária a uma cultura desconhecida, as possibilidades vão do agradável ao detestável, incluindo a morte como foi o caso célebre do Capitão Cook em 1779, no Havaí.

De um lado, há um solitário missionário da conversão; do outro, nativos que oscilam entre as tentações do mundo do visitante, e os problemas do que chega com as avalanches do contato com uma outra humanidade.

Como o missionário, eu era um inocente quando convivi com os recém-contatados índios gaviões, em 1961. Pensando em encontrar uma sociedade de pleno direito, passei cinco meses com um segmento deprimido consciente de sua extinção. Felizmente, estava acompanhado de Júlio Cezar Melatti e a dupla de neófitos se autoequilibrava. Mas não esqueço da história do contato que, na década anterior, ia de conflitos armados à contaminação; como ainda tenho na cabeça a revolta diante dos preconceitos contra os “índios”, num despertar que denunciava a minha ingenuidade missionária diante dos interesses locais nas terras nativas, cujo produto cobiçado era o “ouro verde”: a castanha-do-pará.

O paradigma é, contudo, claro. De um lado, o missionário com o catecismo e o seu amor ideológico. Do outro, o nativo com arco e flechas bem como com seus mitos que não mudam porque não são históricos. Podem ter um lado historiável, como eu mostrei numa análise do mito da origem do branco e do mito da origem do fogo doméstico num estudo intitulado Mito e Antimito Entre os Timbira, publicado em 1970, mas escrito em 1965. Mas, em geral, a entrada na história desses grupos significa sua sentença de morte.

A mesma tragédia que o jornal explicita na morte do jovem missionário que, ao tentar falar da inclusão cristã, aberta incondicionalmente a todos – não faça com os outros o que você não quer que façam com você; ofereça a outra face; ame o outro como a si mesmo... – teve como resposta a recusa irrevogável dos “selvagens” por meio da morte.

Edward Burnett Tylor, um dos pais da etnologia, dizia que todo encontro arrasta ao comércio, à guerra ou a uma aliança matrimonial, que hoje em dia pode vir a ser uma acusação de assédio. O ponto é que o encontro com o “outro” (nas suas mais diversas faces) é marcado pela corda bamba. Na trêmula emoção de romper uma barreira, um mundo pode nascer ou morrer.

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