Selton é a cara do provo brasileiro

Sucesso de público e crítica de O Palhaço rende homenagem ao ator e diretor

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2011 | 03h09

Há uma geração de atores muito talentosos que deu cara ao cinema brasileiro da fase conhecida como Retomada. Recapitulando - as medidas do governo Collor praticamente tiraram o cinema do País do mapa, Carla Camurati reinventou-o com Carlota Joaquina e a história recomeçou. Selton Mello, Matheus Nachtergaele, Wagner Moura, Lázaro Ramos, João Miguel, Rodrigo Santoro e agora (já uma outra geração?) Cauã Reymond. Cada um, à sua maneira, contribui para o diálogo dos filmes brasileiros com o público. Vários dirigem, além de atuar, mas pela persistência - pela quantidade dos filmes e qualidade das interpretações -, não há exagero em dizer que Selton definiu a cara do homem brasileiro na tela, nos últimos anos.

O próprio Selton estará hoje em São Paulo para prestigiar a abertura do evento que começa no Cinespaço Square, na Granja Vianna. A Semana Selton Mello - Ator e Diretor terá seu ponto de partida às 11h30 e ele estará no local, para se encontrar com o público das primeiras sessões - gratuitas - de O Cheiro do Ralo, de Heitor Dhalia, e de outros dois filmes que dirigiu, Feliz Natal e O Palhaço. O segundo marca um salto na evolução de Selton. Ganhou o prêmio de direção da APCA, Associação Paulista dos Críticos de Artes e está batendo na marca de 1,3 milhão de espectadores. A dupla vitória, de público e crítica, consagra um filme que nasceu com a vocação de criar a terceira via para o cinema brasileiro. No set de Billi Pig, de José Eduardo Belmonte, Selton havia sido enfático - "Não podemos ficar à mercê de filmes muito autorais que não dialogam com o público e outros sem nenhuma reflexão que só querem fazer bilheteria a qualquer custo."

Mineiro de Passos, Selton Mello completa 40 anos em 2012. Desde os 8 - há mais de 30 anos, portanto -, ele tem estado frente às câmeras, primeiro as de TV. Fez novelas e minisséries. A Próxima Vítima, Comédia da Vida Privada, O Auto da Compadecida, A Invenção do Brasil, Os Maias. No cinema, O Que É Isso, Companheiro?, Lavoura Arcaica, Lisbela e o Prisioneiro, O Cheiro do Ralo, Meu Nome Não É Johnny, A Mulher Invisível, Jean Charles, Lope.

Fala mansa, gestos contidos, é raro o papel em que Selton Mello sinta necessidade de extravasar. Não é um ator que precise gritar nem gesticular muito para expressar o turbilhão de emoções de seus personagens. O Chicó da Compadecida, o Leléu de Lisbela e o Prisioneiro, o Lourenço de Cheiro do Ralo, Jean Charles - Selton passa com naturalidade pelos mais diferentes papéis. Trabalhar a voz é uma coisa que sabe fazer bem, inclusive porque foi dublador. A voz acrescenta-se, como ferramenta, à fisicalidade dos personagens e isso vale também para o diretor, em sua relação com o elenco.

Selton dirige bem atores - que o digam Darlene Glória, em sua rentrée em Feliz Natal, e Paulo José, como o velho clown de O Palhaço. O filme é sobre esse personagem em crise de vocação, que se indaga sobre se o que faz é realmente o que deseja. Talvez seja o segredo de Selton Mello, como ator e diretor. Cada filme é uma aventura em busca da (re)descoberta. O Palhaço difere de Feliz Natal. "Muita gente achou que aquele era meu estilo de fazer cinema, mas não era. Meu estilo se adapta às histórias que quero contar." Sobre o sucesso, ele é definitivo - "O importante é o novo paradigma. Um filme pode fazer sucesso de público e ser reflexivo e autoral ao mesmo tempo."

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