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Sérgio Augusto
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Seis tête-à-têtes

Vindo do Festival de Cinema de Mar del Plata, onde fora premiado pela direção de Jules et Jim, François Truffaut passou pelo Rio nos primeiros dias de abril de 1962. Entregue pela Unifrance Film ao desvelo do futuro cineasta David Neves e este seu comparsa de imprensa estudantil, Truffaut passeou conosco pela cidade, conversou com um seleto grupo de jornalistas e cinéfilos no Museu de Arte Moderna (com Ruy Guerra servindo de intérprete e Fernando Duarte fotografando), e a duras penas compareceu a um coquetel em sua homenagem na Maison de France. Muito tímido e arredio a reuniões sociais, levou em torno de uma hora na sala da Unifrance para livrar-se de uma enxaqueca, e só então descemos para os drinques.

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

13 de junho de 2015 | 02h00

Enquanto convalescia, preenchemos as lacunas de nossas conversas diurnas (a todo instante interrompidas por uma observação sobre a paisagem carioca), com um tête-à-tête acintosamente cinefílico. E que culminou com o esclarecimento de uma dúvida que havia tempo me incomodava. Como explicar a pífia recepção dos Cahiers du Cinéma a Rastros de Ódio (de John Ford), reduzido a uma sucessão de cartões-postais, numa notinha de três ou quatro linhas?

Segundo Truffaut, que em 1956 era o enfant terrible da revista, o filme tivera um lançamento desastroso em Paris, nas férias de verão e só em versão dublada, mas toda a redação já se penitenciara da injustiça cometida. Godard, acrescentou, tornou-se um admirador incondicional do filme; “e não contém as lágrimas quando John Wayne pega Natalie Wood no colo, e diz ‘Let’s go home, Debbie’”.

Dois anos antes de visitar a América do Sul, estivera, também pela primeira vez, na América do Norte, usufruindo do prêmio que a crítica nova-iorquina concedera a seu longa de estreia, Os Incompreendidos. Dava os últimos retoques em seu segundo longa, Atire no Pianista, achava que o terceiro seria Le Bleu d’Outre-Tombe (não foi, mas seu professor idealista seria de certo modo “aproveitado” em Na Idade da Inocência).

“Franco, bem-humorado, pequeno e franzino, com jeito de garoto” – foram essas as impressões iniciais que Lillian Ross, a formidável repórter da revista New Yorker, teve de monsieur Truffaut (ou “le petit Truffaut”, como era conhecido em Paris por causa de seus 1m68 de altura), ao encontrá-lo para um texto para a seção Talk of the Town.

Com os pés em pandarecos por obra de um par de sapatos apertados, o cineasta, então com 28 anos, recebeu Ross calçando chinelos de feltro. Conversaram sobre o modus operandi da Nouvelle Vague (filmagens de baixo custo, equipe mínima, locações autênticas), as lições que o americano Morris Engel e seu O Pequeno Fugitivo ensinaram à produção francesa independente, o fascínio de Truffaut por crianças e a mediocridade da maioria dos filmes protagonizados por meninos e meninas (além de The Little Fugitive, só abriu mais três exceções: o francês Zero de Conduta, o russo O Caminho da Vida e o italiano Alemanha, Ano Zero).

A imediata empatia entre os dois ajudou a sacramentar um pacto afinal cumprido com rigor. Toda vez que Truffaut ia a Manhattan, os dois se encontravam para outra conversa – e um novo Talk of the Town. Assim foi em 1964, 1970, 1973 e 1976. Sempre em outubro, houvesse ou não um filme dele no Festival de Cinema de Nova York. Noite Americana passou na mostra de 1973 e Na Idade da Inocência, três anos depois.

Na segunda visita, em 1964, o cineasta já dirigira três longas (Atire no Pianista, Jules e Jim, Um Só Pecado) e um dos episódios de Amor aos 20 Anos. “Foi um prazer reencontrá-lo praticamente igual – pequeno e franzino, com no máximo dois quilos a mais”, observou Ross, que levava a capricho o monitoramento do aspecto físico do cineasta, seu estado de espírito – e até o conforto de seus pés, já aliviados pela adoção de sapatos sob medida.

Truffaut ainda se comunicava em inglês com o auxílio da amiga e tradutora Helen Scott, fundamental interface na extensa (80 horas) e inigualável entrevista que ele acabara de fazer com Hitchcock, em Hollywood, e seria editada em livro no ano seguinte. Além de dar detalhes sobre os bastidores da entrevista e das lições de mise en scène que aprendera com o mestre, reavaliou com firmeza sua própria obra. Preferia o episódio de Amor aos 20 Anos (“talvez por ele durar só meia hora, não consigo ver nenhum defeito nele”) aos dois primeiros longas, e confessou ter realizado Um Só Pecado (em fase de montagem) “como uma resposta violenta a Jules et Jim”, de que só parecia apreciar sem reservas a primeira meia hora.

Em outubro de 1970, ei-lo de volta, para o lançamento de O Garoto Selvagem no mercado americano. Em seis anos, concluíra seis filmes (os demais: Fahrenheit 451, A Noiva Estava de Preto, Beijos Proibidos, A Sereia do Mississippi, Domicílio Conjugal) e se internacionalizara, acomodando-se às exigências da indústria sem abdicar de suas emoções e de sua distinção estilística. Perdera, no mesmo período, diversos amigos e colaboradores, mas seu ar mais tristonho tinha outro motivo: a situação da França pós-Maio de 68. “As relações ficaram muito mais duras entre as pessoas”, lamentou, antecipando, no meio da conversa, um projeto profundamente ligado a outro momento crucial da história da França, a Ocupação, que, dez anos mais tarde, mereceria uma abordagem peculiar em O Último Metrô.

Depois de seis semanas num curso intensivo em Los Angeles, “le petit Truffaut” aterrissou no festival de 1974 com um inglês de Maurice Chevalier, correto mas carregado no sotaque francês, que Ross parodiou em alguns parágrafos. Gostava de Hollywood, de seu “charme colonial”, e lá visitara todos os dias o feliz desterrado Jean Renoir. Na bagagem, uma cópia de A Noite Americana, para exibir na mostra, e os memorandos de David O. Selnick recém-editados em livro. 

Em seu último encontro com Ross, até compra em livraria fizeram juntos. No auge da fama, com produtores disputando o privilégio de financiar-lhe um filme, mesmo assim Truffaut se angustiava com a perspectiva de não poder realizar todos os filmes que tinha na cabeça. Ainda voltaria ao festival dali a quatro anos e em 1981, mas se Ross o paparicou outra vez, disso não deu conta na New Yorker.

Todas as conversas que os dois tiveram ao longo de 16 anos (durante os quais, Ross contabilizou, Truffaut assistiu a 2.450 filmes) foram traduzidas pela revista Serrote, do Instituto Moreira Salles, cujo vigésimo número será festivamente lançado na Flip. Belo presente de aniversário para os leitores de nossa melhor publicação cultural.

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