Seis por meia dúzia

Usamos essa fórmula quando uma pessoa faz uma troca na qual ela nada ganha ou perde exceto, eventualmente, a coletividade à qual pertence. A expressão é um belo exemplo de uma transação não histórica (ou até mesmo anti-histórica) na qual, parafraseando o velho Lavoisier "nada se cria, nada se perde" e nada se transforma, embora todos esperem o contrário.

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2011 | 03h08

Eis um caso perfeito do mudar para continuar como, aliás, admitiu a própria presidenta quando, na posse do novo titular do turismo, deu vivas ao Brasil e à sua aliança com o PMDB a cujo feudo - não se pode ter mais nenhuma dúvida - pertence o ministério em pauta. Claro que todos esperam que as coisas se transformem para melhor nessa indústria tão básica no mundo moderno e tão crucial para um Brasil que tem muito a avançar nesta área e será hospedeiro de uma Copa do Mundo e de uma Olimpíada.

Embora a presidente afirme, na significativa entrevista concedida à jornalista Patrícia Poeta que no seu governo não há uma desatinada troca de favores, no Ministério do Turismo o que se observa é uma curiosa preferência pelo Maranhão e pelo senador José Sarney como indicador de cargos. Aqui não há satanismo político, exceto o da monopolização de certos cargos e ministérios sem a menor preocupação com um mínimo de calibragem entre meios e fins: no caso, entre competências técnicas e a função a ser realizada.

No fundo, essa troca de seis por meia dúzia confirma um traço claro embora pouco discutido de nosso sistema de poder: o fato de que o cargo pode ser ocupado por qualquer ator, desde que ele seja devidamente empistolado ou tenha um padrinho de peso, de sorte que pouco importa se entende ou não das suas tarefas ministeriais, pois essa preocupação racional corriqueira torna-se irrelevante diante do aval (ou da Bênção) do poderoso padrinho. Essa onipotente política de indicação que avilta e abusa do elo racional entre meios e fins e hoje é justamente uma dimensão que uma parcela ponderável do eleitorado brasileiro não suporta mais. Ao lado dos impostos ela é um ponto central do "custo Brasil". Neste caso, trata-se de um "custo político" fundado nas relações pessoais mas mascarado por um elo partidário. Elo que, na maioria dos casos, só tem serventia para legitimar um velho sistema de parentescos e simpatias intransferíveis de modo que é o apadrinhamento travestido de coalizão que pode transformar um leigo num especialista em economia, em relações internacionais, em saúde, comunicação ou transporte. Nas magias das listas, temos um dos mais fortes exemplos das desordens e irracionalidades vigentes naquilo que chamamos de "política" e, por isso a "política" é vista como uma região social na qual os valores da ética, da moralidade, da racionalidade e, sobretudo, do bom senso são subvertidos ou desdenhados. Ao persistirmos em trocar seis por meia dúzia, ao supormos que a "política" (com seus interesses imediatos, sua necessidade de manter fachadas e sua lógica de só pensar o Brasil em termos de permanecer no poder) tudo pode, estamos retardando a transformação da nossa sociedade num sistema mais igualitário. Se o padrinho vale mais do que a educação, se o que conta no final é um partido político e não a competência, se o que efetua a troca é a bênção, então de que vale o mérito?

Se você, querido leitor, não contrata um eletricista para ser cozinheiro mesmo quando ele é recomendado pela Ana Maria Braga, como é que o governo federal pode entregar um ministério para uma pessoa que nada tem (ou teve a ver) com o objetivo básico daquela instituição? Você entraria num avião pilotado pelo papa, por Barak Obama ou por Ivete Sangalo? O nosso Silvio Santos poderia ser ministro da Saúde por indicação de São Pedro?

Ter ou não competência; servir ao papel e às instituições de modo hábil cedendo, é claro, ao bom senso tendo como objetivo o bem-estar do Brasil; ser ou não ser um trocador de seis por meia dúzia, é uma questão a ser posta na mesa dentro da nossa caminhada em direção a uma democracia que requer gerenciamentos mais eficientes da máquina pública. Porque esse elo pouco politizado (no sentido de ser discutido) entre papéis sociais que não nos pertencem (mas são de certas instituições e corporações como secretarias e ministérios) englobam também cargos políticos que devem ir além da mera capacidade de bater um bom papo ou até mesmo de saber escolher bons auxiliares. Por quê? Porque a mera política de indicação por meios de elos pessoais não fornece uma visão do Brasil e do seu lugar no cenário mundial. Você pode pensar que o poder permite isso, mas fique advertido que ele não é onipotente ou eterno. A política pode e faz, mas como estamos vendo reiteradamente nesses nossos tempos de neopopulismo, ela precisa ter um mínimo de afinidade com a competência e, acima de tudo, com a sinceridade. O mundo não funciona na base de uma república de Platão nomeando somente sábios. Aliás, conhecimento nem sempre garante sensibilidade e discernimento político. Dos políticos espera-se, sem dúvida, um mínimo de sintonia com os cargos que ocupam. Mas o que deles se exige de verdade não é apenas o gerenciamento eficiente e técnico da coisa pública. É, acima de tudo, o modo pelo qual tomam conta de nossas riquezas e ajudam a discernir o nosso futuro. Duas palavras definem esse estilo: sinceridade e ética. Elas não exigem diploma, mas tampouco são coniventes com apadrinhamentos e simpatias pessoais à custa do nosso trabalho.

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