Segura pra não sair dos trilhos

No momento da criação deste texto, Monteiro Lobato é tema de outro enredo, não tão fascinante

, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2010 | 00h00

O samba carioca se desenvolveu no mesmo contexto geo-histórico da formação dos subúrbios da antiga capital federal. Do Estácio de Ismael Silva, vizinho da Praça Onze, ele chegou a Osvaldo Cruz, reduto de Paulo da Portela. E, nessa trajetória básica, "subiu" do Centro para a hinterlândia, nos trilhos da antiga Estrada de Ferro Central do Brasil.

O trem foi, por isso, tão decisivo para o desenvolvimento do samba quanto já era, desde o fim do século 19, na expansão da própria região suburbana carioca. Desenvolvida a partir da linha ferroviária principal, da "auxiliar", e dos ramais da Leopoldina e da Estrada de Ferro Rio D"Ouro, a região, com expressiva população de pretos e mulatos foi fundamental na formação da cultura e do modo de ser do carioca interiorano; gente essa que, a olhos desacostumados, era, então, vista como feia e desajeitada, "suburbana", enfim.

Foi assim que, um dia, o escritor Monteiro Lobato, de algum ponto da antiga Rua Larga, hoje Avenida Marechal Floriano, próxima à Central do Brasil, observou os passantes, que iam para os subúrbios ou deles procediam; e sobre eles assim se expressou em carta ao seu amigo escritor Godofredo Rangel:

"Estive uns dias no Rio (...). Dizem que a mestiçagem liquefaz essa cristalização racial que é o caráter e dá uns produtos instáveis. Isso no moral - e no físico, que feiura! Num desfile, à tarde, pela horrível Rua Marechal Floriano, da gente que volta para os subúrbios, que perpassa todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas - todas, menos a normal. Os negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão, vingaram-se do português de maneira mais terrível - amulatando-o e liquefazendo-o, dando aquela coisa residual que vem dos subúrbios pela manhã e reflui para os subúrbios à tarde. (...) Como consertar essa gente? Como sermos gente, no concerto dos povos? Que problemas terríveis o pobre negro da África nos criou aqui, na sua inconsciente vingança!..." (in A Barca de Gleyre. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1944. p.133).

Talvez o eugenista Lobato não soubesse que, naquele momento, gente como aquela que observou estava dando forma definitiva a uma fina manifestação de arte popular. Pois desde 1933, já se apresentavam no carnaval da Praça Onze, ali perto, entre outras, as escolas de samba Amizade (de Realengo); Guarani (Madureira); Lira do Amor e Paz e Amor (Bento Ribeiro); Mangueira; Podia Ser Pior (Cordovil); Prazer da Serrinha (Vaz Lobo), uma das matrizes do Império Serrano; Recreio de Ramos; e Vai Como Pode (Osvaldo Cruz), futura Portela.

Observemos que, em 1967, a Estação Primeira de Mangueira (que leva esse nome exatamente por ter sede na primeira das estações de uma das quatro antigas linhas férreas suburbanas) homenageava Lobato com um enredo cujo samba até hoje ecoa na memória sambística nacional:

"Quando uma luz divinal/ Iluminava a imaginação/ De um escritor genial/ Tudo era maravilha/ Tudo era sedução/ (...) Com seus personagens fascinantes/ Nas histórias tão vibrantes/ Da literatura infantil/ Enriquece o cenário do Brasil/ E assim/ neste cenário de real valor/ Eis o mundo encantado/ Que Monteiro Lobato criou" - dizia a letra.

Vejamos agora que, no momento da criação do presente texto, o escritor é tema de outro enredo, não tão fascinante. É que um parecer de especialistas, a partir da análise de algumas de suas formulações, desaconselhou a distribuição, pelo Ministério da Educação, de um de seus livros à rede pública de ensino fundamental. O motivo foram referências tidas como racistas feitas por alguns de seus personagens, principalmente a boneca Emília.

Ocorre que a literatura brasileira está coalhada de referências derrogatórias como as supostamente contidas nas obras de Lobato. E muitas delas escritas por autores já exaltados por nossas escolas de samba.

Essas referências, de épocas passadas, em nada empanam o brilho desses escritores, cuja leitura, por sua qualidade literária, sempre deve ser estimulada. Mas, cá entre nós, usar dinheiro público para propagar, junto à infância e à adolescência, ideias negativas sobre qualquer um dos segmentos étnicos que compõem a nação brasileira é "atravessar" o samba. E desmerecer a nota 10 com que todos sonhamos na quarta-feira.

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