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Segura o homem*

Declaro meu voto em Eduardo Jorge.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2014 | 02h05

Não para presidente, é claro, seu nome nem estará na cédula do dia 26, o dia em que ele completa 65 anos. Voto no Eduardo Jorge para ministro extraordinário de Civilidade, com um salário anual de R$ 1, mais uma bicicleta e um vale-borracheiro para consertar pneus.

Como filha de um médico sanitarista - de fato, um pioneiro, sem falsa modéstia filial -, reconheço no ex-secretário de Saúde e do Meio Ambiente de São Paulo certas qualidades do médico sanitarista que me criou. Entre elas, uma rejeição atávica a reduzir opositores a ponto de não sobrar nada para um entendimento produtivo, algo que parece ter sido aposentado da mentalidade de tantos servidores públicos. Reconheço também uma dose sensata de realismo que, em seguida, é contraposta a outro impulso: a teimosia de imaginar cenários de bem-estar para os brasileiros sem o cinismo dos zumbis com MBA.

Reconheço o senso de humor - seria possível atravessar década após década como médico sanitarista no Brasil sem a capacidade de rir de si mesmo e do caos à volta?

Quando se descobre tanta corrupção e se barateia palavras como honradez, quando Lula se indigna com um teste de bafômetro (sério) e o PSDB se redescobriu como uma reencarnação do Mahatma Gandhi e da Madre Teresa de Calcutá, Eduardo Jorge não apeou num cavalo branco de superioridade para destilar sua indignação. Pelo contrário, continuou puxando o jegue de sua campanha presidencial na velocidade possível.

Eduardo Jorge é talvez o político que melhor conseguiu começar a desmontar o tabu do aborto como um direito da mulher e um exercício de compaixão da sociedade. Afinal, ele é um reprodutor serial, que confessou ao Fernando Gabeira seu desejo de continuar tendo filhos além dos seis que já colocou no mundo. Mas seus companheiros ambientalistas lembraram que era preciso dar um refresco para o planeta.

Não é difícil compreender por que Jorge deixou saudades no final do primeiro turno, mesmo entre os que não votaram e não votariam nele.

Para concorrer à presidência no Brasil, além do dinheiro de frigoríficos, é preciso se transformar numa Stepford wife de marqueteiro. Explico: The Stepford Wives (1972) é um romance policial satírico de Ira Levin, duas vezes levado ao cinema, em que donas de casa numa cidade idílica de Connecticut se tornam misteriosamente submissas e dizem platitudes com um vácuo robótico no olhar. Sem o dinheiro de corporações, que se comprometeu por escrito a recusar, e sem decorar frases de laboratório, Eduardo Jorge fez o maior sucesso como o anti androide desta temporada eleitoral cabra da peste.

Quem se eleger presidente pode comemorar à vontade mas não pode evitar o fato de que nós já estamos de ressaca. Temos náusea com o discurso envenenado de baixaria e dor de cabeça só de imaginar a faxina necessária (ou síndrome de pânico se ela não for feita). Mostrar ao público que Eduardo Jorge está de plantão a menos de mil pedaladas do Planalto poderia acalmar nosso estômago e nossos nervos. Como ministro de uma pasta extraordinária, depois que o Brasil extinguisse a gordura obscena de uns dez ministérios, todos os que sobrassem poderiam, cada um, ter uma mesa, um computador e uma cadeira com um suposto paletó do Eduardo Jorge, só para fumegar o ar de roubalheiras passadas e prevenir futuras. Não pensem que estou idealizando o médico sanitarista baiano ou esperando dele ele um acúmulo hercúleo de responsabilidades. Como um dos fundadores do PT, que saiu depois das revelações do mensalão, e ex-secretário de um governo tucano, ele não cabe na forma enferrujada que continuaram a nos empurrar. Só estou sugerindo que ele fique por perto.

*Esta coluna é dedicada a Fausto Pereira Guimarães, que teve a sorte de partir em seu sono e de não testemunhar a campanha presidencial de 2014.

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