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Segunda-feira

Há algo nas segundas-feiras que desperta nas pessoas a ideia de abstinência

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

29 Julho 2018 | 02h00

As estatísticas provam, brasileiro não transa nas segundas-feiras. Segunda é o dia da semana com o maior índice de TV ligadas no País. Não há nada na tradição judaico-cristã que proíba o sexo às segundas, como há com outros tipos de comidas. Simplesmente se convencionou que segunda-feira não é dia para isso. Ou, mais especificamente, aquilo. 

*

Os conselheiros matrimoniais conhecem casos em que o tabu foi desrespeitado.

– Ele quis me forçar a fazer sexo com ele, doutor.

– Bem, como ele é seu marido, não creio que “forçar” seja o termo adequado...

– Era segunda-feira, doutor! 

– TARADO!

*

Há algo nas segundas-feiras que desperta nas pessoas a ideia de abstinência. Remorso, talvez. A velha ética do trabalho nos compelindo à autoflagelação pelo pecado de ternos folgado por dois dias. Já são anedotas as histórias de pessoas que começam dietas – ou abandonam o cigarro, param de jogar e fazem outra tentativa de ler Grande Sertão: Veredas – todas as segundas-feiras.

Geralmente a virtude não dura até quarta-feira, mas a compulsão existe. 

Você tem até o fim da noite de domingo para fazer tudo que pretende abandonar na segunda-feira, o que só aumenta seu remorso. Para não falar na ressaca.

*

A lei que transferiria para a segunda-feira todos os feriados nacionais (o projeto existe, juro) seria o primeiro de um plano mais amplo, que é o de abolir a segunda-feira da consciência nacional, depois da semana inglesa, a semana brasileira. Como levaria algum tempo para a gente se acostumar com a nova semana, as segundas-feiras passariam a ser uma espécie de zona cinzenta entre a folga e a rotina, um amortecedor nessa curiosa divisão das nossas vidas entre dias úteis e inúteis. A segunda seria um dia para reflexão, para a nação reencontrar sua cabeça e para você se reconciliar com seus pecados.

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E tudo começaria de novo, na primeira hora de terça-feira. 

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