Segunda chance

Programação no CCBB visa a dar sobrevida a filmes brasileiros sem grande público

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2011 | 03h07

De hoje a domingo, tem cinema brasileiro no Centro Cultural Banco do Brasil. A mostra Brasil - Tela para Todos inaugura novo horário. No primeiro fim de semana do mês, e durante dez meses - até setembro de 2012 -, sempre às 13 horas, o CCBB estará exibindo dez títulos importantes da produção nacional. A mostra, com curadoria da jornalista Maria do Rosário Caetano, visa a dar a segunda chance a produções que, a despeito da estima da crítica, não tiveram a reciprocidade do público e ficaram abaixo da marca de 50 mil espectadores nos cinemas.

O longa de estreia da nova programação não poderia ser mais auspicioso - Antes Que o Mundo Acabe, da cineasta gaúcha Ana Luiza Azevedo. O filme trata de identidade e relações familiares, baseado no livro de Marcelo Carneiro da Cunha. É um autor que investiga o universo da infância e da adolescência e que, no Sul, é muito conhecido - seus textos são adotados em escolas e isso já deu uma entrada para o filme, junto a um importante segmento do público, pelo menos no Rio Grande do Sul.

Na época do lançamento, a diretora lamentava que os jovens não tenham o hábito de ver muito o cinema brasileiro. Casada com o montador Giba Assis Brasil, Ana contou que o marido sempre teve o hábito de ler em voz alta para os filhos, quando crianças. Foi Giba quem lhe chamou a atenção para o livro de Carneiro da Cunha, dizendo que havia ali um bom material. Ana encantou-se. "São muitas camadas. O garoto que faz o rito de passagem, o triângulo que forma com o colega e a menina que ambos desejam, a relação com o pai distante, tudo isso somado a uma discussão ética." Essa última fascinou particularmente a diretora e, por que não arriscar, a curadora.

Mais do que dar projeção a filmes merecedores de uma sobrevida, a mostra do CCBB tem como objetivo refletir sobre a realidade do cinema no País. O Brasil produz atualmente cerca de 80 títulos por ano. O mercado é aquecido por blockbusters - no ano passado, Tropa de Elite 2, de José Padilha, bateu o recorde histórico de Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Bruno Barreto, e, com mais de 12 milhões de espectadores, se converteu no filme brasileiro de maior sucesso de todos os tempos. Paralelamente, obras de alta qualidade não conseguem passar pelo teste da bilheteria.

"Muitos filmes inquietos e inventivos não conseguiram alcançar o público que almejavam e mereciam. Nosso propósito é oferecer nova oportunidade de fruição aos interessados", ressalta a curadora. Nunca é demais lembrar que a seleção espelha a diversidade da produção nacional. "São títulos concebidos e produzidos em todos os Brasis, longas de Porto Alegre, do Recife, Rio e de São Paulo, feitos por cineastas jovens ao lado dos já tarimbados." Como apenas 8% dos quase 6 mil municípios brasileiros dispõem de cinemas - em geral, as grandes cidades e eles são concentrados nos shoppings -, os cerca de 200 milhões de habitantes do Brasil dispõem de apenas 2.238 salas para ver filmes.

Em visita ao Rio, para promover o lançamento da animação O Gato de Botas, o superprodutor Jerry Katzenberger lamentou que o Brasil tenha apenas 400 salas equipadas em 3-D, um número muito reduzido em face do potencial do público. O problema é que o Brasil não produz em 3-D e um eventual aumento do número de salas apenas beneficiaria ainda mais a produção de Hollywood, que já domina, maciçamente, o mercado. Nesse quadro, a proposta da mostra Brasil - Tela para Todos ultrapassa o debate estético e abrange também o da economia do cinema. A programação seguirá exibindo os filmes destacados no quadro. O próximo, em janeiro, será Feliz Natal, de Selton Melo, e o novo filme do ator e diretor, O Palhaço, também com P\aulo José, ainda está em cartaz nas salas.

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