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Segunda chance

Quero voltar a uma matemática que ninguém soube me ensinar

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

26 Dezembro 2017 | 02h00

Você pode achar que é coisa de maluco, ou de quem não tem mais o que fazer, mas de uns tempos para cá tenho corrido atrás de uns livros que forraram minha infância. De literatura prazerosa, a maioria, mas também manuais escolares – de matemática, inclusive. (Quase posso ouvir meus pais dizendo, lá onde estão: já era tempo desse menino tomar jeito...)

Saudosismo? Vá lá. Bem moderado, na verdade – até por me lembrar (ainda) do que disse o poeta Paul Valéry: a nostalgia não é mais o que ela era. O fato é que tenho batido à porta eletrônica da Estante Virtual, em busca de leituras de menino e adolescente. Engraçadinhos e maledicentes poderão dizer que, tendo fracassado no mundo adulto, tento agora começar de novo, na esperança de que desta vez dê certo. Até que não seria má ideia, essa de refazer o que passou, mas o objetivo é modesto. Revisitação sentimental, claro, e um pouquinho mais: aqui e ali, botar uns remendos na minha emburacada formação.

Quero voltar a Lalau, Lili e o Lobo, de Rafael Grisi, o primeiro livro que consegui ler, sozinho, de ponta a ponta, tomado, ao fechá-lo, do júbilo irrepetível das grandes estreias. Da história nada me ficou, mas tenho vivíssima lembrança de cada detalhe do momento em que, resfolegante corredor de maratona, cruzei o ponto final: o lugar onde estava, no pátio da Escola 12 de Dezembro, durante o recreio, o impulso de sair contando a todos o meu feito.

Está nos planos, também, dar uma gulosa lambiscada nos livros da Condessa de Ségur, a começar pelos Desastres de Sofia e O General Dourakine; nas aventuras de Tarzan na coleção Terramarear; em Três Garotos em Férias no Rio Tietê e Caçando e Pescando por Todo o Brasil, de Francisco de Barros Júnior; nos 18 volumes do Tesouro da Juventude. E, por que não?, em A Carne, de Júlio Ribeiro, com o risco de não reencontrar nas páginas desse romance, lido bem longe da vigilância dos pais, todo o fogaréu que abrasou a meninada da minha geração.

Já estou de posse de um velho exemplar da antologia de Raul Moreira Lélis, galeria de figurões das letras na qual o caçula é Mário de Andrade, antigo ao ponto de ter morrido 15 dias depois do meu nascimento. Ao folheá-la, me bateu inveja da moçada que se criou na leitura de autores que além de serem bons estavam vivos – Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga, Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos, timaço da crônica concentrado na coleção Para Gostar de Ler.

Vou atrás do Manual de Español do professor Idel Becker. Dos dois volumes de Latim para o Ginásio, de José Cretella Júnior, dos quais, aliás, excepcionalmente fiz bom uso. E, pasme quem me viu tomar tanto zero, dos livros de matemática de Ary Quintella e Osvaldo Sangiorgi. Não que tenha, a esta altura da vida, a veleidade de finalmente me acertar com os números. Apenas quero ver se encontro ali algum estribo capaz de me dar acesso a um mundo que, não sendo o meu, ainda assim não precisava ter ficado a tamanha distância de quem desde cedo se interessou mais pelas letras do que pelos algarismos.

Falo de um tempo, de um modelo pedagógico em que a garotada logo se dividia em duas falanges, a das ciências humanas e a das ciências exatas, materializadas, após o ginasial, no curso clássico e no científico, respectivamente. No primeiro, que escolhi – ou ao qual, penso às vezes, fui condenado –, não havia matemática, física, química, biologia. Costumo brincar que foi de minha parte uma sábia opção, porque quando ignoro alguma coisa, me basta dizer: “Não sei, fiz o clássico”.

Na verdade, ficou em mim um aleijão. Não resolvi a minha relação com os números. Nem dos números primos cheguei a ser parente. Mas sempre tive por eles um fascínio, que não foi atendido. Parte da responsabilidade cabe a mim – mas poderia ter sido diferente. Não encontrei, no ginasial, alguém que me acordasse para a beleza da matemática. Alguém que, no mínimo, me fizesse ver para que servia aquele universo de algarismos e signos, frequentemente servidos a nós alunos sob a forma de um assustador conglomerado de nome “carroção”. O dicionário Houaiss informa tratar-se de “problema ou expressão matemática composta de muitos termos”. Para mim, era como se fosse um literal carroção, e me coubesse a cavalar tarefa de puxá-lo.

Minha professora nos primeiros anos do ginasial, dona Lulude, limitava-se a verter fórmulas e notas baixas. Dela se contava que, conversando com um colega, gabou-se de haver, naquele fim de ano, reprovado 75% de seus alunos. Quer dizer, observou o outro, que sua capacidade didática é de apenas 25%? Não espanta que um bando de alunos em fúria tenha tomado nos braços e depositado no centro de um lamaçal, no estacionamento do pátio, o Vauxhall da Lulude, dizem alguns que com a dona dentro.

Não participei da retaliação. Mas não nego que, no fundo, ainda hoje me lamento por ter, justo naquele dia, trocado a aula da Lulude pela piscina do vizinho Minas Tênis. Quanto ao carroção, quem sabe agora o Quintella e o Sangiorgi não me ensinam a manha de puxá-lo sem sentir-me um burro?

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