Segredos latinos

Conjunto de Chicago grava raridades do repertório do século 18 no México

JOÃO MARCOS COELHO , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2013 | 02h11

Fundada em 2004, a Chicago Arts Orchestra reúne musicólogos, músicos e cantores, além do regente Javier José Mendoza - todos de extração mexicana ou afim - em torno da missão de promover concertos e gravações de alta qualidade do repertório da música mexicana colonial do século 18, boa parte dela inédita em disco. Ótima notícia, porque são raras as gravações de qualidade do repertório colonial das Américas.

Daí a importância do seu recém-lançado CD Al Combate, pelo selo italiano Navona Records. É uma preciosidade, pois traz música vocal e instrumental mexicana composta por mestres de capela italianos que atuaram nas catedrais de Durango e da Cidade do México em meados do século 18. Foi um período de prosperidade econômica, calcada na mineração. Os bons ventos econômicos traduziram-se também num impulso expressivo na prática musical. Dois compositores italianos transferiram-se para o México. E mudaram a face da música naquela região.

São eles Ignacio Jerusalém, nascido em 1707 e morto em 1769, e Santiago Billoni, cujas incertas datas de nascimento e morte atribuem-se entre 1700 e 1763. Ambos construíram sólidas carreiras na então chamada Nova Espanha. Como no Brasil, estes compositores são considerados pré-clássicos, mas o musicólogo Drew Edward Davies, responsável pelas pesquisas do projeto e autor do excelente texto do encarte, enfatiza que Ignacio é um compositor típico do "estilo galante, dominante na europa entre 1720 e 1780". Drew explica: "Originário de Nápoles, o estilo galante usa texturas claras e melodias líricas". Trocando em miúdos, é uma música que soa do mesmo jeito, seja profana ou religiosa.

A obra mais importante desta gravação é Al Combate, de Ignacio Jerusalém, subintitulada "Ode para a Coroação de Carlos III", composta em 1760 a propósito da ascensão ao trono da Espanha do rei da casa dos Bourbon.

As execuções são de excelente nível. Como era costume na época, há uma "abertura" instrumental em três movimentos na sequência rápido-lento-rápido, que na verdade constituem uma pequena sinfonia, prefigurando as sinfonias clássicas. Em seguida, encadeiam-se coros, recitativos e árias.

Mais algumas gemas escondem-se neste disco revelador. É uma delícia a ária "Cristal Bello", de Ignacio Jerusalém, composta para o Natal, de escrita muito moderna, que impressiona pela extensão, quase 14 minutos. ou seja, ela apresenta um desenvolvimento bem mais encorpado do que o convencional. É excelente é a interpretação da soprano Eleanor Ranney-Mendoza.

Outra gema é , de Santiago Billoni, "Mariposa Inadvertida", ária de 1750. Os versos são: "Mariposa inadvertida/que a la luz te vuelves ciega/ pues tu amor tanto se pega/ a quien te quita la vida/ que te apartes de tu engaño/ te aconsejo pues advierte / que te cercas a tua muerte/ si no tomas desengaño". Sem querer brincar, mas já brincando, é como Adoniran Barbosa comporia, se vivesse no século 18, sua célebre "As mariposa quando chega o frio/ ficam dando vorta em vorta da lâmpida pra si isquentá".

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