Segredos e mentiras de uma velha amizade

Em uma de suas excursões teatraispelo interior do Brasil, durante os anos 70, o dramaturgo MarioBrasini estava no bar de um hotel quando passou a observar oencontro de duas mulheres que pareciam velhas amigas. Durantetodo o tempo em que estiveram juntas, porém, as duas senhorasdiscutiram acaloradamente, como se finalmente ajustassem contas.Ao cabo de uma hora de disputa, nova surpresa: despediram-se comafeto e, como se nenhuma ofensa tivesse sido trocada, uma dissepara a outra: "Então, quarta-feira, sem falta, lá em casa." Impressionado, Brasini, que produzia compulsivamentequando inspirado, reuniu as impressões daquele encontro eescreveu, em 1976, uma peça que trata da importância da amizade.Como título, escolheu justamente a última frase trocada entre asamigas: Quarta-feira, Sem Falta, Lá em Casa. Sucesso no Riona época, o texto ganha agora uma montagem paulistana, comestréia na quinta-feira, no Teatro Renaissance. A peça conta a história de Alcina (Beatriz Segall) eLaura (Myrian Pires), amigas há mais de 40 anos, que se reúnemàs quartas-feiras na casa de uma delas para falar de amigos,vizinhos, amores, passado. Em uma dessas conversas, descobremque não sabem tanto assim uma da outra e, em um clima que oscilado hostil para o descontraído, provocam o surgimento de segredosinsuspeitos e más lembranças, alterando o ritmo da conversa. "Trata-se de uma comédia em que as personagens vãorevelando aos poucos seus sentimentos", comenta Beatriz Segallque, mesmo disposta a encenar um texto nacional (o último foiDo Fundo do Lago Escuro, de Domingos Oliveira, em 1998, como Grupo Tapa), exibiu uma certa relutância inicial para aceitaro de Brasini. "Mas, a cada leitura, fui descobrindo novasfronteiras até ser totalmente arrebatada." Sua adesão ao projeto, aliás, foi resultado de uma sériede coincidências. Myrian Pires, com quem Beatriz dividiu o palcoem Ponto de Vista, foi grande amiga de Mário Brasini, quemorreu em 1997, aos 76 anos. "Conversávamos muito, cheguei amorar na casa dele e sempre tive disposição de montar o texto,mas, durante 30 anos, não consegui apoio", conta Myrian, que sesurpreendeu ao ser sondada pelo diretor Alexandre Reinecke, queadquirira os direitos de montagem. "Levei um susto quando eleme convidou e aceitei imediatamente." Reinecke, por sua vez, descobriu o texto de Brasini aoassistir a uma montagem em Campinas, há 15 anos. Ficouimediatamente fascinado e voltou a pensar na peça quando decidiumontar um espetáculo baseado em autor nacional. Com aconfirmação de Myrian Pires, decidiu convidar Beatriz Segall,impondo-se então um desafio: apesar da experiência como ator,praticamente inicia agora a carreira na direção. "Ele nos surpreendeu com uma condução segura eeficiente", conta Beatriz que, depois de trabalhar comdiretores consagrados, buscava trabalhar com um nome ascendente."E ainda nos apontou caminhos alternativos para a construçãodos personagens", completa Myrian, que não participava de umapeça nacional desde Barreado, de Ana Elisa Gregory, há 19anos. E, apesar de experientes, as atrizes apresentaram osmesmos temores. "No início, havia uma insegurança que é comum atodos, mas, aos poucos, elas descobriram a composição ideal",comenta o diretor. Como as personagens têm personalidades distintas,Reinecke decidiu seguir um caminho realista, priorizando otrabalho das atrizes. Alcina, a mais velha, revela-se uma mulherfaladeira e impulsiva. Ingênua e com uma moral conservadora, éfacilmente influenciável pelos pensamentos alheios. Já Laura émais racional e irônica. Dominada - Inicialmente, as atrizes interpretariam ospapéis trocados, mas Beatriz pediu para ser Alcina, a maisfrágil das amigas. "Eu buscava um personagem que fossediferente dos demais que venho interpretando, ou seja, nãoqueria mais viver mulheres dominadoras", conta. "Eu precisavaser dominada no palco." Quarta-feira, Sem Falta, Lá em Casa teve suaprimeira encenação em 1977, no Rio, com Henriette Maurineau eEva Tudor. Com o sucesso, o texto chegou a ser montado na Suíça,três anos depois. Em entrevista na época, o autor Mario Brasiniobservou, em sua obra, uma unidade de tempo e espaço. "Trata-sede uma típica comédia de costumes e fala de um momento em que osamigos e inimigos vão morrendo ou se afastando e as pessoas sesentem irremediavelmente sozinhas", comentou ele. O cenário concebido por Paulo Segall reproduz umapartamento de classe média alta, em Copacabana, cuja mobílialembra os anos 40 e 50: estilo clássico, com um tom claro eharmônico. A trilha sonora pesquisada por Raul Teixeira utilizamúsicas brasileiras da época, enquanto o figurino concebido porHelena Toscano segue o estilo sóbrio e elegante dos anos 60.Serviço - Quarta-Feira, Sem Falta, Lá em Casa. Comédia. De MárioBrasini. Direção Alexandre Reinecke. Duração: 1h10. Sexta, às21h30; sábado, às 20 e 22 horas; domingo, às 18 horas. R$ 50,00.Teatro Renaissance. Alameda Santos, 2.233, tel. 3069-2233. Até22/12. Estréia quinta para convidados e sexta para o público

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.