Segredos do chuveiro de Psicose

Segredos do chuveiro de Psicose

Obra revela o destino da dublê de Janet Leigh na famosa cena

Will Hodgkinson, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2010 | 00h00

Nos preparativos para o lançamento de Psicose em 1960, Alfred Hitchcock fez tudo o que podia para aumentar o suspense. "Ninguém será admitido no cinema após o início de cada exibição", declarava o cartaz, mostrando um Hitchcock com cara zangada apontando um dedo. O diretor adquiriu todos os exemplares do romance original, que ele havia licenciado por meros US$ 9 mil, para que quase ninguém soubesse como a história terminava. Ele também filmou em set fechado e obrigou o elenco e a equipe a assinarem um acordo prometendo não mencionar o fim para ninguém. Não houve exibições prévias.

Quando surgiram as resenhas de Psicose, relançado em Londres na semana passada, elas se concentraram em um momento chocante: a sequência do chuveiro, em que Janet Leigh é esfaqueada até a morte.

Formada por 70 tomadas, cada uma com duração de dois ou três segundos, ela se tornou um dos momentos mais infames na história do cinema de horror. Misturando cortes rápidos e a música assustadora de Bernard Herrmann, Hitchcock criou uma ilusão brilhante de sangue, violência e nudez - mostrando, na verdade, muito pouco.

A maior ilusão, contudo, foi dar a sugestão muito clara de que era Leigh que estava sendo esfaqueada até a morte por Anthony Perkins como um maníaco travestido. Leigh, em sua primeira entrevista após o lançamento do filme, partilhou o horror do público: "Eu acreditei que aquela faca entrava em mim. Foi real assim, horripilante assim, eu podia senti-la!" Em entrevistas posteriores, Hitchcock e Leigh afirmaram categoricamente que era o corpo dela na cena do chuveiro - mas não era. O corpo pertencia a uma modelo chamada Marli Renfro. Quando não se pode ver o rosto de Leigh nas tomadas, está se olhando para sua dublê de corpo.

Uma stripper nascida em Dallas que trabalhava em Las Vegas, Renfro foi uma das primeiras Bunnies ("coelhinhas") da revista Playboy. Além de Psicose, ela só apareceu em um outro filme, a comédia-western pornô leve Tonight for Sure (Os Amantes do Nudismo), de 1962, de Francis Ford Coppola. Depois, ela desapareceu, esquecida - até uma notícia de 2001 informar que um faz-tudo de 34 anos havia sido condenado por violentá-la e estrangulá-la, um crime que havia ocorrido em 1988, mas ficara sem solução por mais de uma década.

Fascínio. O escritor americano Robert Graysmith - autor de Zodiac, a narrativa clássica sobre um assassino em série de São Francisco nos anos 1970 - ficou fascinado. Ele havia se interessado por Renfro e sempre havia pensado em escrever um livro sobre ela. Agora parecia que ela havia sido morta num assassinato que era um eco grotesco do assassinato ficcional que ela ajudara a tornar tão famoso.

A notícia original de 2001 da Associated Press dizia que Kenneth Dean Hunt, o faz-tudo, fora condenado pelo "assassinato de duas mulheres, incluindo uma atriz que fora dublê de corpo de Janet Leigh no filme Psicose". Essa atriz se chamava Myra Davis; notícias posteriores na imprensa explicaram que esse era o nove verdadeiro de Renfro.

Graysmith mergulhou fundo na história, certo de que alguma coisa não se encaixava. Em dezembro de 2007, ele leu uma entrevista com a neta de Davis em que ela expressava perplexidade sobre a conexão com o chuveiro. "Minha avó nunca fez nenhum trabalho nua", disse ela.

Obsessão. Graysmith fez duas descobertas. Primeira, que Renfro e Davis eram duas pessoas distintas; e segunda, que Renfro ainda estava viva. A confusão surgira porque, embora Renfro tenha sido dublê de corpo de Leigh em Psicose, Davis fora a substituta da atriz, usada para verificar arranjos de iluminação. Em seu novo livro, The Girl in Alfred Hitchcock"s Shower (A Garota no Chuveiro de Hitchcock, em tradução literal), Graysmith sugere que Kenneth Dean Hunt era um obcecado por Psicose que queria matar a dublê de corpo de Leigh mas pegou a substitua por engano.

"Todos se confundiram", diz ele, "até um assassino. Descobri que Marli ainda estava viva. Acontece que ela tem estado tão ocupada pescando em Utah, escalando no Alasca, nadando com golfinhos na Flórida e em geral vivendo plenamente a vida que não tinha a menor ideia de que devia estar morta".

Renfro, que hoje vive no deserto de Mojave, na Califórnia, só se inteirou de seu suposto assassinato quando Graysmith lhe contou. "Ela não era uma pessoa fútil, e não tinha nenhum interesse por sua carreira passada", diz ele. "Ela não lia artigos sobre a sua pessoa; e, depois que seu primeiro marido a fez queimar todas suas velhas fotos picantes por ciúme, ela não conservou um álbum de recortes." Isso pode ajudar a explicar também por que ela nunca pediu mais que seus US$ 500 iniciais por estrelar basicamente a cena de cinema mais famosa da história, num filme que arrecadou US$ 15 milhões apenas em seu primeiro ano. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

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