Robson Fernandjes/AE
Robson Fernandjes/AE

Segredos de Glória

Destaque da SPFW, a estilista Gloria Coelho lança livro e exposição sobre sua obra inovadora

Lilian Pacce, O Estado de S.Paulo

30 de janeiro de 2011 | 00h00

Enquanto São Paulo parou na terça para comemorar o aniversário da cidade, um prédio dos anos 50 em Pinheiros, onde fica o QG de Gloria Coelho, estava a todo vapor, com suas máquinas de costura, linhas e agulhas trabalhando como fadas-madrinhas da Cinderela. É que em véspera de São Paulo Fashion Week não há feriado para quem trabalha com moda. Só hora extra. Especialmente no caso de Glória, que desfila na quarta-feira e, no dia seguinte, lança um livro e abre a exposição Gloria Coelho - Linha do Tempo, no Museu da Casa Brasileira, que vai exibir fotos e 60 looks criados desde 1996, quando surgiu o SPFW e ela entendeu a necessidade de arquivar suas criações e criar memória.

Livro e exposição são projetos independentes que acabaram acontecendo juntos e retratam a carreira da estilista a partir de 1993. "Tenho a sensação de que trabalhei muito nesses anos, mas sem sentir nenhum peso", comenta Glória, em entrevista exclusiva ao Estado.

Nascida em Minas Gerais, ela passou a infância na Bahia até se mudar para São Paulo. Em agosto, completa 60 anos. Há 41, faz moda e, há 36, tem sua própria marca. No entanto, o entusiasmo ao falar de suas criações é tão grande que parece de principiante. Os monstrinhos Pokémon são a inspiração para o desfile de quarta. Vem aí um inverno colorido? "Sim, há muitos tons claros de azul, amarelo, laranja, verde, combinados com preto, off-white e marinho. E tem muito do DNA da marca, como armaduras e roupas de motocross", conta.

Já a exposição é uma evolução da que ela apresentou no Museu da Cidade em Lisboa em 2004. "É uma oportunidade para a nova geração conhecer melhor nossa técnica. Percebi que muitas vezes meu trabalho estava além do tempo. Em 2003, por exemplo, fiz a coleção 3-D de Luxo, uma ideia que está acontecendo de fato só agora."

Gloria lembra de muitos momentos importantes de seu trabalho, como o verão 1999/2000, com estampas fluo que acendiam no escuro; o verão 2001/02, quando deixou a sala no escuro ("Ficou tudo negro"), pouco antes dos atentados de setembro de 2001 nos EUA; o verão 2004/05, com roupas tipo armadura, sem costura, arrematadas apenas por pinos; o verão 2006/07, cheio de flores, apresentado no dia da morte de seu pai. "Não poderia deixar de fazer o desfile. Saí de lá direto para o enterro." Hoje, o grupo Gloria Coelho detém a marca homônima, a Carlota Joakina e a Pedro Lourenço. São 120 funcionários, três lojas próprias e 100 pontos de venda, alguns no Japão e na Europa.

Como você começou na moda? Aos 6 anos quando ganhei uma caixinha de costura e não conseguia dormir. Eram os anos 1960, a boca das calças começou a alargar e senti que queria fazer moda! Aos 15 anos, eu desenhava a roupa de todas as minhas amigas.

Quais foram os passos mais importantes da sua carreira?

Minha família sempre me deu liberdade para criar. Viemos pra São Paulo quando eu tinha 9 anos e, aos 11, eu tinha uma amiga que também era apaixonada por moda: a Traudi Guida, da Le Lis Blanc, que viabilizou a edição desse livro. Fazer o curso no Iadê foi importante também - era equivalente ao da Belas Artes. Meus primeiros sócios, Rosa e Abrahão Henrique Saposnic, me ensinaram muito, assim como meus encontros com Marie Rucki (diretora do Studio Berçot de Paris que vinha ministrar workshops pela então Rhodia) e com o Reinaldo Lourenço (com quem ela foi casada por 25 anos), e o nascimento do meu filho.

O que era bom e não é mais?

No começo eu só criava, era mais gostoso. Agora tenho de refletir muito para fazer a criação pois há muitos fatores administrativos que me levam a trabalhar 14 horas por dia para dar conta das duas coisas. Mas fazer moda, para mim, sempre foi igual a andar e respirar, sem esforço nenhum.

Como define seu estilo?

Tenho uma fixação pela década de 60, a mais linda do século 20. Mas misturo com rock, punk, nerd, ted boys. Detesto roupa retrô, igual a de um brechó. Sempre penso como seria a roupa do futuro. Você só começa a ter uma expressão própria quando respeita suas escolhas. Agora todo mundo está fazendo roupa comprida, mas não estou com vontade. É o meu ponto de vista que prevalece, e não o dos outros. Não importa o que o mercado diz, você deve criar seu universo, sua turma. Não existe certo e errado. Existe gosto: pode ser sexy, austero, romântico, nerd. Depende do seu jeito.

E a evolução do mercado no Brasil?

Estamos crescendo muito, temos ateliês e demais segmentos como em qualquer lugar do mundo, com o gosto brasileiro. Há pessoas de estilos diferentes e essa diversidade abre espaço para todos se expressarem no mercado. O consumidor evoluiu muito, hoje ele tem desejo próprio, independente do que as chamadas "tendências" mandam.

Como é vista fora do Brasil?

Não sei falar muito de mim, mas foi uma honra receber o título de Grande Dama da Moda Brasileira da revista Wallpaper e estar entre as novas expressões no mundo na Madame Fígaro. E pouco tempo atrás o Style.com descreveu o Pedro como filho de dois importantes estilistas brasileiros.

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