Seduzidos pelo Brasil, o Black Eyed Peas empolga o Morumbi

Crítica

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2010 | 00h00

O charme tropical hipnotizou o Black Eyed Peas. Discursos ufanistas que pareciam plágios traduzidos de um pronunciamento do presidente Lula; rimas que incorporavam um português muito além do boa-noite e obrigado; e coreografias coloridas com mulatas de escola de samba marcaram, nesta quinta-feira, o último show da turnê que o grupo fez por nove cidades do País.

Vestidos de avatares futuristas, o grupo trouxe ao Estádio do Morumbi uma multidão de 60 mil fãs de todas as idades, que pulou e dançou incessantemente ao som de uma inesgotável lista de hits. O show teve produção grandiosa e mostrou que, embora a música do grupo não se adapte com boa qualidade à arena, a força das melodias é o bastante para manter a moçada em movimento por mais de duas horas.

O destaque da noite foi o rapper e produtor Will.i.am, cérebro da banda, cujas composições muito perderam com uma mixagem medíocre, que aumentava os vocais e encorpava os graves, deixando de lado a sensação de espaço necessárias para apreciar o som, e priorizando os elementos que fazem uma massa de milhares pularem e cantarem.

Lá pela quarta música, Will.i.am mostrou que é o verdadeiro talento do grupo de Fergie, Apl.de.ap e Taboo. Com um freestyle voraz, em que as luzes se apagaram e todas as firulas de produção do show foram reduzidas a batida e voz, o rapper costurou rimas contundentes com fragmentos de português: "Ai ai ai, meninas lindas", " gostosas" e "bundas, bundas bundas", frases que levaram a mulherada ao delírio no estádio.

As canções de produção esparsa como o hit Imma Be, febre do ano passado, que o grupo tocou em seguida, foram as mais felizes. Mas o arsenal de melodias contagiantes é tamanho (I Got a Feeling, Where Is the Love e Boom Boom Pow) que poderiam, sozinhas, fazer um show.

Will.i.am também soube ser sério. Parabenizou o País pela eleição de Dilma Rousseff, ressaltou a moral que o Brasil tem no exterior e fez apologias às suas coisas prediletas, como vodca com guaraná, Jorge Ben e feijoada. Com sinceridade, disse que o Brasil é o "best place on the planet", contou que está louco para se mudar para cá e que comprará uma casas no Rio e em São Paulo no ano que vem.

A belíssima Fergie também teve seus bons momentos, mas estes foram da ordem física. O rebolado da cantora nada ficou devendo ao do grupo de mulatas que adornava a famosa releitura de Mas Que Nada. O único momento em que cantou sem o auxílio de softwares de afinação foi na faixa de abertura Let"s Get it Started, quando ficou claro que a cantora não alcançaria com tamanha precisão os agudos de hits como Missin You, Hey Mama e Big Girls Don"t Cry, esta última a melhor de todas as interpretações da cantora.

O auxílio processado da cantora pasteuriza o som do Black Eyed Peas, e a vivacidade que se espera de uma apresentação ao vivo se dilui em uma tentativa de recriação do disco. É o caso de que predomina em quase todos os shows de estrelas atuais. Esse vácuo de personalidade fez com que o show perdesse o ímpeto em diversos momentos, principalmente quando Will.i.am atacou de DJ para tocar trechos curtos de hits que foram de Nirvana a Michael Jackson e U2.

Isso não deteve a empolgação da moçada, que acenava os celulares e, quando a produção apagava a luz, formava uma decoração mais interessante do que qualquer truque de produção. A apresentação foi dividida em seções que focam nos diferentes membros da banda. Desses momentos, o melhor é o de Fergie, que atacou com Fergalicious, a excelente faixa do seu disco The Dutchess, de 2006 (produzido, é claro, por Will.i.am).

O ápice do show veio com o onipresente hit I Got a Feeling, do ótimo disco The E.N.D. A canção é uma ode à leveza de espírito da juventude e pode ser considerada a mais ouvida do momento. Mas o BEP é uma fábrica de hits o novo disco, a ser lançado no fim do mês, promete muitos mais.

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