Sedução e êxtase

Tristão e Isolda, em Manaus, prova ser uma montagem para arrebatar todo o País

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2011 | 00h00

A 15.ª edição do Festival Amazonas de Ópera teve anteontem, no sempre emocionante Teatro Amazonas, seu clímax: o público assistiu à estreia de nossa maior soprano, Eliane Coelho, no papel mais estafante e complexo da história da ópera.

Pela primeira vez, a única "diva" brasileira atual encarnou Isolda, a heroína de Richard Wagner que conduz a trama da ópera que lhe deve o nome. Tristão, o guerreiro que a leva de "presente" para o tio Rei Marke e participa do título da ópera, mas está em segundo plano, com certeza.

Daí o acerto da encenação de André Heller-Lopes: concentrou-se em Isolda. Das 4,5 horas da ópera, Eliane atua por 3,5 horas (a primeira hora e meia sem sair de cena). O papel exige uma voz de soprano dramático sutil e ao mesmo tempo ampla e poderosa para sempre pairar acima da orquestra. Luiz Fernando Malheiro e seus músicos enfrentaram com êxito uma partitura difícil, que jamais os deixa se acomodarem. Afinal, trata-se de uma história em que a música é o mote principal.

Explica-se: Wagner acabara de descobrir o filósofo Schopenhauer, que coloca a música como soberana de todas as artes, a única imaterial. Wagner, que curtia um tórrido caso de amor com Mathilde Wesendonck, mulher de seu mecenas, transportou seu "caso" seduzido pelo vértice amor-morte. O segundo ato é uma enorme cena de amor. Um crítico, segundo Jorge Coli no texto do programa oficial, afirmou que este "é o mais longo orgasmo da história". Pudera, o dueto empilha 90 minutos de êxtases. Já Virgil Thompson, o maior crítico norte-americano da primeira metade do século 20, contabilizou "sete orgasmos". Heller literalmente "regou" essa orgia com milhares de pétalas de rosas que se confundiam com o vestido vermelhíssimo de Isolda. Foi o momento mais belo, plasticamente falando, de uma montagem sem erros.

A cena mais famosa é a final. A "liebestod", ou morte de amor, de Isolda exige qualidades vocais difíceis de se conciliar: uma projeção sem falha para dominar ondas orquestrais cada vez mais expansivas, mas também serenidade absoluta e doçura supraterrestre, chegando a um agudo que flutua em pianíssimo. São várias as grandes Isoldas da história, como Kirsten Flagstadt e Birgit Nilsson. Hoje, Waltraud Meier e Nina Stemme dividem as glórias internacionalmente; mas a elas devemos juntar, a partir de agora, Eliane Coelho.

Pílulas finais sobre o elenco, homogêneo e num nível excelente de performance: 1) o Tristão do tenor John Charles Pierce é correto e privilegia as porções nos registros médio e grave (seus agudos não são tão bonitos, mas corretos sempre); 2) a Brangane de Andreia Souza foi estupenda, com belo timbre e uma firmeza impressionante; 3) Leonardo Neiva fez um Kurvenal notável, com direito a um ótimo final no terceiro ato; o rei Marke de Kevin Maynor trouxe ao papel um timbre de baixo soft, macio, com excelente participação na parte final do segundo ato e no terceiro; 3) a Orquestra Amazonas está a um passo de conseguir performances de alto nível. Ainda há esbarrões aqui e ali, desencontros/desafinações entre as cordas (poucas, bem poucas) - senões minúsculos numa empreitada tão formidável.

P.S.: Não entendo como uma montagem tão bem-sucedida como essa se reduz a duas récitas. Esse Tristão e Isolda teria que viajar pelo Brasil inteiro para mostrar um padrão de qualidade operístico inédito em nosso país.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.