Secretário prevê "decisões ásperas"

Qual experiência que o sr. trouxe da sua passagem pela Secretaria de Cultura de Campinas (1989 à 1990)?Marco Aurélio Garcia - Muitas experiências ruins, o que só aponta para agora uma coisa: o que não vou fazer (risos).Em primeiro lugar, acho que a Secretaria lá pedia uma estrutura de formação cultural, que não pude começar, mas vou tentar fazer aqui. Ou seja, o trabalho na periferia vai criar e consolidar, aos poucos, novos públicos - isso tem que começar a ser feito. Não importa que num primeiro momento apenas 0,1% dos cidadãos sejam atendidos. Depois será 0,5%, depois 1%, até atingir muita gente. Em segundo lugar, acho que uma experiência positiva que tive foi que eu ouvi muitas pessoas, e vale correr esse risco. Mas agora sei que há momentos em que tem que se decidir coisas, e às vezes algumas decisões são decisões ásperas. Para fazer omelete tem que quebras os ovos, e eu lamento de não ter quebrado alguns lá.E quanto ao Plano de Governo das candidaturas de Lula, há algum reflexo daquelas diretrizes nessa gestão?Posso dizer que praticamente a filosofia daquele Plano de Governo é a mesma que estou aplicando aqui. Mas os problemas de política cultural do âmbito nacional são de outra escala. E não só pela amplitude e diversidade do país, mas também pelo fato de que os equipamentos e a complexidade institucional que o país tem é extremamente maior que a de São Paulo, embora São Paulo tenha um pouco disso, a cidade nesse particular é uma espécie de micro-cosmo - e não tão micro assim, talvez um "mezzo-cosmo" brasileiro - então eu diria que aqui enfrentaríamos muitas coisas parecidas. É uma cidade multi-étnica, multi-cultural, que abriga gente de todo o País e de todo o mundo.É preciso lembrar que as atividades culturais podem ter um efeito secundário extremamente importante na área econômica e social. Por que nós não podemos acoplar o projeto de primeiro emprego para jovens à área cultural? Todos projetos sociais da prefeitura, de uma maneira geral, possuem uma série de áreas nas quais poderíamos atuar na formação de pessoas altamente qualificadas, como design, moda, culinária, que são profissões que poderiam ter um bom impacto em determinadas regiões. Se você pegar um grupo de 50 crianças, deve haver cinco ou seis com vocação para desenho, no mínimo. Será que não é possível que essas pessoas se desenvolvam numa oficina de design, e sejam encaminhadas para empresas? O custo industrial disso aqui (pega o gravador) cai cada vez mais, mas os gastos do fabricante com marketing e design são cada vez mais elevados. Então certas coisas vão ganhar importância. E tem uma demanda dessas qualificações, e são atividades essencialmente culturais.Quando passou pela Secretaria da Cultura na gestão de Luiza Erundina, Marilena Chauí se desgastou bastante, chegando a dizer que não repetiria o feito, e ligou o desgaste à discrepância entre o ofício acadêmico e administrador. O sr. espera um tipo de pressão parecida com a que Marilena sofreu?Não. A própria Marilena me disse: "você vai se dar melhor do que eu". O problema é que para a Marilena a Secretaria de Cultura foi a primeira experiência político-administrativa pela qual passou. Ela teve um papel muito importante no PT e nas esquerdas em geral, em razão do brilho de sua inteligência. Com muita justeza ela recebeu esse convite, mas pagou o preço da experiência. Uma função como essa exige também esse tipo de qualificação - e longe de mim me comparar intelectualmete a ela - mas exige também um outro tipo de sensibilidade política que decorre da experiência. Sempre compatibilizei a atividade intelectual com uma atividade política. Talvez seja para mim um inconveniente, pois não sou nem um grande político nem um grande intelectual, mas tenho uma vantagem ao poder harmonizar as duas coisas com uma certa facilidade. É evidente que isso gera sempre uma insatisfação, pois esse exercício vai me pesar intelectualmente. Vou ter que encontrar um jeito para não ser emburrecido pela atividade administrativa e política - o que acho que vou conseguir mantendo minha aula de história na Unicamp, no mínimo. Isso vai me obrigar a ser mais disciplinado.

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