Secretário humaniza e desvenda trajetória de JK

Escrever é uma maneira de dar testemunho de um país e de uma época, acredita o escritor mineiro Autran Dourado. Não importa o assunto: de qualquer maneira, o livro é sempre um testemunho de seu autor, quer queira ou não. Fiel a esse raciocínio, Dourado produziu 21 obras ao longo de 48 anos, em uma maturação lenta mas definitiva. É sobre esse processo de criação que ele fala nesta quinta-feira, às 20h30, no Instituto Moreira Salles (Rua Piauí, 844, 1.º andar), com entrada gratuita. Como em outras realizações do instituto, será distribuído um CD, em que o escritor lê trechos de sua obra. No encontro de amanhã, Dourado tem a oportunidade de falar também sobre fatos históricos, como a morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek.Eram 18 horas de domingo, 22 de agosto de 1976. Juscelino, 74 anos, viajava para o Rio, pela Via Dutra, em seu Opala verde-metálico. O carro era dirigido por Geraldo Ribeiro, motorista do presidente havia 36 anos. O Opala mantinha a velocidade média de 100 quilômetros por hora e, naquele momento, estava cerca de 30 metros à frente de um ônibus da viação Cometa. Os dois veículos encontravam-se no trecho entre os quilômetros 165 e 164, próximo à cidade de Resende, quando o Opala foi tocado na traseira esquerda pelo ônibus. Geraldo Ribeiro perdeu o controle do veículo, que cruzou a rodovia desgovernado e bateu de frente com uma carreta que vinha no sentido Rio-São Paulo. O ex-presidente e seu motorista tiveram morte instantânea."Estou certo que foi isso mesmo o que aconteceu", sustenta Dourado, secretário de imprensa do governo Kubitschek no período entre 1955 e 1960, duvidando das inúmeras suspeitas de que o ex-presidente teria sido vítima de um atentado. "Juscelino era adorado pelo povo, que, como sempre, não sabe perder seus mitos tão facilmente." Tal versão foi confirmada nesta terça-feira pela comissão externa da Câmara dos Deputados, criada para investigar as suspeitas em torno da morte de Juscelino.Desvendar certas histórias que cercam este mito é a intenção de Dourado com o livro de memórias Gaiola Aberta: Tempos de JK e Schmidt, que a editora Rocco lança no fim de setembro. A obra vai ser o ponto máximo da republicação de todos os 21 livros do escritor, já iniciada pela editora, que vai exibir seu projeto literário coerente e afinado. "Será minha obra decisiva", proclama. "Depois de tanto tempo, vou revelar fatos dos quais participei e que ainda não foram aprovados pela minha consciência moral."Imaginação - Aos 74 anos, aposentado como escrivão, Dourado guardou na memória os nove anos em que viveu nos governos Kubitschek (como governador de Minas Gerais e depois presidente da República). Algumas poucas reminiscências de sua intimidade com o poder foram aproveitadas na ficção, em A Serviço del-Rei, relançado agora. Mas não passaram, segundo o próprio autor, de um exercício de imaginação. Dourado irrita-se quando confundem o presidente que enlouquece no romance com Juscelino Kubitschek. Assim, as memórias políticas, espera ele, servirão como obra de referência.Autran Dourado acredita ter chegado o momento. "Nunca toquei nesse assunto antes por escrúpulo e afetividade, pois temia magoar a mulher do ex-presidente, Sara", justifica-se, considerando seu dever fazer a avaliação pessoal da figura com quem trabalhou durante tanto tempo. "Mas, não tenho o direito de esconder do País determinados fatos." O escritor garante não lançar mão de fofocas, evitando assuntos amorosos, como a paixão outonal de JK por uma senhora da sociedade carioca, Maria Lúcia Pedroso. E, em alguns trechos, preferiu adotar nomes fictícios, o que informa no texto, como proteção.Tampouco é sua intenção desmitificar o ex-presidente. "O JK de meu livro de memórias palacianas não é o mito e a lenda, mas o homem, com suas contradições e altos e baixos." Interessou-se mais pela sua capacidade de realizar um sonho ambicioso do que com a mística do político dinâmico. Em suma: preocupou-se com o homem impaciente e não com o comandante da construção de Brasília.A impaciência, aliás, pode ter sido um dos motivos do acidente de JK, segundo Dourado. "Juscelino perdia facilmente a calma, além de gostar muito de andar em alta velocidade", conta. "Outro ponto negativo é que, infelizmente, o motorista Geraldo Ribeiro gostava de beber e, naquele dia, atrasou-se para a viagem, o que deve ter irritado Juscelino." A tentativa de recuperar o tempo perdido, conclui, foi fatal.O escritor adotou a técnica de recriar a realidade utilizando a estrutura de um romance. A intenção deliberada é emocionar os leitores e Dourado cercou-se de cuidados com a escrita. O texto foi submetido à leitura de três amigos próximos antes de ser encaminhado ao editor. O cuidado não é recente - desde sua estréia com o romance Tempo de Amar, de 1952, Autran Dourado é um escritor imune a modismos e escolhe a técnica como grande protagonista.A aproximação com JK ocorreu na década de 50, quando o então governador mineiro requisitou um taquígrafo que fosse escritor. "Ele gostava de viver rodeado de autores", conta Dourado que, nesta época, manteve um discreto contato com o poder. "Ficamos realmente próximos na presidência da República, quando eu podia entrar sem precisar bater na porta."Intimidade - A convivência diária no Palácio do Catete, no Rio, permitiu ao escritor participar da intimidade de decisões políticas, a ponto de naturalmente assumir a função de secretário de imprensa. O presidente pediu-lhe até para freqüentar as sessões de despachos com políticos. Foi quando conheceu os contornos morais do poder."Assumi uma importância tão grande no governo que o Tancredo Neves ironicamente me tratava por papai", lembra Dourado, revelando bem menos simpatia para outro político: Jânio Quadros, então governador de São Paulo. Segundo o escritor, Quadros ameaçou renunciar ao governo paulista caso Kubitschek não o nomeasse delegado brasileiro na Unesco. "Em um efeito dramático, ele até jurou que se mataria."Ao perceber que Quadros utilizaria a nomeação para fins políticos, Dourado aconselhou o presidente a enviar o convite por telegrama, o que o desobrigaria de assinar qualquer documento. "Mesmo assim, Jânio convocou a imprensa e anunciou que, apesar do convite de Juscelino, não abriria mão de governar o povo paulista."Outro momento, mais dramático, foi um enfarte sofrido por Kubitschek - a pedido da primeira dama, Sara, a notícia foi abafada. "Ela temia que tivessem uma idéia de fraqueza do presidente", conta o escritor, contrário à medida. Prevaleceu, porém, a vontade da mulher do presidente. "Conseguimos esconder a informação durante alguns dias sem que quase ninguém desconfiasse, pois eu dispunha de uma série de papéis em branco assinados por Juscelino que foram utilizados nos despachos normais."Apesar de sua influência, Dourado não guarda boas lembranças do período. "Foi uma fase ruim da minha vida, a ponto de adoecer pois não consegui produzir nenhum trabalho literário", comenta. "Descobri ainda que é difícil falar em amizade no ambiente político."Dourado não acompanhou a mudança do governo para Brasília, em 1960 - preferiu ficar no Rio, por opção pessoal. Para dedicar-se à escrita, o que conseguiu graças a um cartório que abriu, garantindo-lhe estabilidade. Recusou-se a ser ativista na volta de JK ao poder, preferindo refugiar-se na sua literatura. O ponto final vem agora, com o livro de memórias. "Como não acredito em eternidade, JK, para mim, morreu."

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