Secretária anuncia plano para a Cultura

Nos próximos meses, os gestos vigorosos do maestro John Neschling e a conseqüente resposta sonora dos músicos da sua Orquestra Sinfônica do Estado serão captados por câmeras e microfones instalados na Sala São Paulo para ser transmitidos ao vivo pela Tevê Cultura. Levar os concertos da Osesp para a televisão é uma das saídas propostas pela secretária estadual de Cultura, Cláudia Costin, para aproximar o público de uma orquestra que, em 2002, consumiu R$ 18 milhões dos cofres da Secretaria - quase 20% do orçamento da pasta - para atrair apenas 5.080 assinantes. "Temos uma orquestra de primeiro mundo e um estado com 36 milhões de habitantes. Não é justo que apenas uma pequena elite tenha acesso a um produto cultural da qualidade da Osesp. Levaremos a orquestra à tevê", disse a secretária, que ontem completou três meses no cargo. Aos 47 anos, casada, mãe de dois filhos e com um portentoso currículo em gestão de políticas públicas, Claudia Costin parece disposta a derrubar um tabu: o de que é impossível reduzir desperdícios em atividades ligadas às artes. "Tudo aquilo que é mantido com o dinheiro do contribuinte precisa de gestão. Não vou implantar uma política de cortes e enxugamentos, mas vou insistir em ações vigorosas de combate ao desperdício". O primeiro alvo desta política da secretária é a Casa das Rosas, um dos últimos casarões da Avenida Paulista, que despede-se do público como espaço dedicado a manifestações artísticas de vanguarda para se transformar, já no dia 23, no Espaço de Leitura Casa das Rosas. "A cidade tem seis espaços destinados à arte contemporânea - a Pinacoteca, o Museu de Arte Contemporânea, o Paço das Artes, o Centro Cultural São Paulo, o Centro Cultural Maria Antônia e o Museu da Imagem e do Som", enumerou. "Não precisamos de um sétimo espaço com o mesmo fim. Por isso a Casa das Rosas irá sediar uma biblioteca estadual, um local destinado a lançamentos de livros e saraus de poesia". O acervo e a programação da Casa das Rosas serão absorvidos, segundo a secretária, pelo Paço das Artes e pelo MIS, que reabre no fim de julho depois de um ano fechado para reformas. "Iremos entregar o museu totalmente reformado, sem goteiras ou infiltrações". A transformação da Casa das Rosas em biblioteca é o primeiro passo do principal sonho de Cláudia Costin: fazer de São Paulo um estado de leitores, objetivo que ela persegue desde o primeiro dia de sua administração. Ela promete vitaminar o acervo das bibliotecas do interior, criar cursos para a capacitação de bibliotecários e monitores de leitura e ainda fornecer linhas de crédito para pequenos empresários interessados em montar livrarias. "Não se promove a literatura se não houver um incentivo vigoroso do governo", acredita. O discurso de Claudia Costin reúne alguns elementos capazes de provocar calafrios em produtores acostumados a encontrar no Estado um parceiro infalível para suas investidas. "Não posso criar uma política cultural segmentada para dança, para cinema, para teatro", avisa. "Quero criar uma política para o ser humano e não para os produtores culturais. A secretaria não pode ser vista como um balcão de negócios para eles". Entre os projetos que ela encontrou ao assumir a secretaria estava a recuperação dos estúdios da Vera Cruz, em São Bernardo do Campo, que deveria consumir uma verba de R$ 30 milhões. Mais US$ 10 milhões seriam necessários para a compra de equipamentos cinematográficos. "É muito dinheiro, fui aconselhada a não dar continuidade ao projeto", revelou. Os planos da Secretaria da Cultura para este ano envolvem ainda a implantação de fábricas culturais em nove regiões carentes da cidade, dentro de um programa batizado de Projeto Arquimedes. Ao contrário das oficinas culturais já existentes, as fábricas culturais terão suas atividades escolhidas pela comunidade onde forem instaladas. "Não se trata apenas de um projeto para a formação artística, e sim de um programa de inserção social. Uma pesquisa apontou que 85% dos menores da Febem vêm de regiões sem equipamentos culturais e é nestas áreas que vamos atuar", promete. O Projeto Guri, que ensina música para crianças carentes, este ano será estendido para as 50 cidades mais pobres do Estado.

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