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Secos & Rachados

Fotobiografia de Gerson Conrad, ex-Secos & Molhados, 'expurga' um dos integrantes

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2013 | 02h16

Como contar a sua própria história, se um terço dela se recusa a participar da narrativa? É mais ou menos frente a esse dilema que se encontra hoje em dia um dos mais influentes grupos da música pop brasileira (e provavelmente mundial): os Secos & Molhados. Há quase quatro décadas, desde o fim do grupo, dois de seus três integrantes (Ney Matogrosso e Gerson Conrad) não conversam mais com o terceiro elemento, o compositor, violonista e cantor João Ricardo.

Ocorre que Gerson Conrad resolveu contar sua história em uma fotobiografia, Meteórico Fenômeno - Memórias de um ex-Secos & Molhados. Por intermédio da sua editora, Conrad pediu autorização a João Ricardo para publicar as fotos dos três, mas João Ricardo negou.

"A minha imagem colada à dele? De jeito nenhum! Seria uma estupidez, há 39 anos não nos relacionamos", afirmou João Ricardo. "Como o livro tem conotações comerciais, e inclusive é usado para me atacar, por que eu autorizaria?".

O resultado da negativa foi um recurso no mínimo bizarro: por meio de cortes, Photoshop ou outros recursos, João Ricardo virou um fantasma no livro. Ele é mencionado (inclusive na letra de uma música inédita, Direto Recado), mas não há imagens dos três no seu auge. É mais ou menos como se Paul McCartney tivesse vetado a reprodução de sua imagem nos seus anos de Beatles, e os outros o recortassem das fotos.

"Uma pena João, por vaidade ou pouca espiritualidade, ter vetado o uso de imagem dele. Para mim, é uma atitude individualista que desrespeita o grande número de fãs que nos cultua", lamentou Gerson Conrad. Ambos eram muito amigos. Conheceram-se na Alameda Ribeirão Preto, no bairro da Bela Vista, quando ainda eram garotos, tocavam violão e jogavam pingue-pongue.

Curioso é que Conrad, apesar do imbróglio com João Ricardo, defende que se peça autorização prévia a qualquer biografado para que se escreva um livro sobre ele. "Acho coerente que, seja lá quem escreva uma biografia sobre algum artista, solicite no mínimo uma autorização. Assim como procedi com Ney e João Ricardo", afirmou.

"Tenho acompanhado as manifestações de Chico, Gil entre outros, sobre essa questão. Minha opinião não difere muito de seus contra-argumentos. João, por exemplo, negou a autorização de imagem, e nem por isso desisti de publicar minha obra. Sempre haverá recursos éticos a serem adotados ou escolhidos para esses casos."

O caso da fotobiografia de Gerson Conrad pode não ser da mesma natureza da restrição que motiva o debate sobre as biografias não autorizadas, mas é ilustrativo da distorção que a autorização prévia pode causar. "Certamente João Ricardo assimilou erroneamente a conotação literária 'não importa a intenção do autor, o que importa é a obra', julgando-se a própria obra", alfineta Gerson Conrad no livro.

João Ricardo não quer nem saber o que o colega escreve no livro. Diz que Conrad é uma pessoa "totalmente desimportante" e não quer polemizar. "Nem é um livro, na verdade. Parece que é mais uma revista. Para ser honesto, não tenho interesse (em ler)", afirmou. "É a visão dele, é a versão dele. Eu sou totalmente a favor da liberação das biografias. Não há nada que explique que uma pessoa não possa falar de você, que é um artista, se expõe. Nos Estados Unidos, há milhares de biografias falando mal dos ídolos do rock. Mas o direito de imagem é outra coisa. Os dois saíram do grupo me detonando. Não faço restrições a que falem o que quiserem, mas, se você procurar bem, vai achar uma entrevista deles falando cobras e lagartos de mim quando saíram do grupo, em 1974. Só me falta agora me virem com essa: 'Posso usar sua imagem para ganhar um troco?'", disparou.

"Uma bobagem". Foi como Ney Matogrosso definiu ontem a ausência das fotos de João Ricardo no livro. "É o relato dele (Conrad). Não seria o meu. Mas eu não tenho nada contra biografias não autorizadas. Só que, a partir do momento em que vira uma coisa muito volumosa, um filme, uma novela, uma série, tem de ser remunerado sim", afirmou.

A versão que Conrad dá para o fim dos Secos & Molhados tem um nome simples: dinheiro. "João Ricardo nos pressionou para que aceitássemos seu pai como nosso empresário. Mil promessas foram feitas e, no final, quando entramos em nosso escritório, fomos tratados como simples empregados e não como donos do negócio", disse Ney Matogrosso em 13 de agosto de 1974.

Nesta quinta-feira, Gerson Conrad lança e autografa o livro na Livraria da Vila do Shopping JK Iguatemi (Av. Juscelino Kubitschek 2.041, Vila Olímpia), das 18h30 às 21h30. É dele a música feita para o poema de Vinicius de Moraes, Rosa de Hiroshima, uma das canções mais conhecidas do grupo. Hoje, Gerson Conrad está à frente de uma nova banda, Trupi. Na canção inédita que é direcionada a João Ricardo, Direto Recado, Conrad canta: "Talvez fosse melhor deixar que vivesse o mito/ Deixem uma só vez o legado de lado/ Não temos que ser nem Secos, nem Molhados/ Meus caros amigos".

METEÓRICO FENÔMENO - MEMÓRIAS DE UM

EX-SECOS & MOLHADOS

Autor: Gerson Conrad

Editora: Anadarco (135 págs., R$ 56)

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