Se você pegar a estrada errada, não chega a lugar nenhum

Análise: Mario Bortolotto

MARIO BORTOLOTTO É DRAMATURGO, ATOR, O Estado de S.Paulo

13 Julho 2012 | 03h11

Louanne era uma garota bonita como Kristen Stewart também é. Talvez no filme ela apareça com o nome de Marylou. Foi assim que Kerouac a batizou no seu clássico livro On the Road que marcou toda uma geração de jovens inquietos amantes de jazz, garotas, drogas e longas distâncias. Kristen Stewart é Louanne (ou seria Marylou?) no filme de Walter Salles que é justamente a adaptação cinematográfica de On the Road.

Kristen Stewart é boa atriz. É possível atestar isso no ótimo Corações Perdidos, de Jake Scott. Mas Kristen Stewart é também uma estrela em ascensão. Então o que eu realmente temo que tenha acontecido é que Walter Salles tenha se rendido a possíveis pressões de produtores para que Kristen tivesse uma participação e importância maior na história transformando catastroficamente o filme clássico de uma geração numa simples história de triângulo amoroso e minha apreensão se mostrou totalmente justificada após ter assistido ao trailer que estampa um trio de protagonistas numa história que evidentemente tem apenas dois protagonistas óbvios: Neal Cassady (Dean Moriarty), o herói do livro, e Jack Kerouac (Sal Paradise), o narrador que acompanha o herói com a paixão de um escritor que encontrou a motivação para escrever o livro de sua vida.

E Jack não teria escrito o livro se não tivesse encontrado Neal que era casado com Louanne que caía na estrada com ele. Neal passou Louanne para Jack. Mas Neal costumava se comportar como um esquimó ao receber visitas. Ele costumava dividir a mulher com o amigo. Louanne não foi a única. A participação dela em toda a história é de mero coadjuvante. Aliás um dos muitos coadjuvantes.

Se ela for transformada em protagonista, então alguém pegou a estrada errada. Mas ignorando essa minha apreensão, parece que está tudo lá, o clima da história, a narração fiel ao texto de Jack, um Neal Cassady (Garret Hedlund) carismático e alucinado e um Jack Kerouac (Sam Riley) mais contido, observador, e timidamente deslumbrado com o estilo de vida do amigo.

Walter Salles tinha condições de fazer um grande filme. Ele fez Terra Estrangeira, que figura fácil no meu Top Ten do cinema nacional. Ele se preparou de maneira bastante responsável para dirigir esse filme. Percorreu os Estados Unidos em toda a rota beat entrevistando aqueles que ainda estão vivos e fizeram parte da história. Transformou essa "pesquisa" num documentário que eu sou muito a fim de ver. E por isso ainda quero acreditar que estou errado. Que o filme é no mínimo merecedor de ter sido adaptado do livro fundamental que o precedeu.

Tenho certeza que milhares de bons e velhos garotos batendo pés inquietos no chão ao som de um bop também pensam como eu. Nós só queremos assim como os míticos heróis do livro dizer baixinho no escuro do cinema: "Go, man, go". Esperamos mais de 50 anos por isso?

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