Se todo criminoso fosse psicopata, o mal teria receita

Análise: Daniel Martins de Barros

O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2012 | 03h21

O psicopata de novela é um fenômeno recente - até meados de 1990, as tramas traziam sempre mocinhos e vilões, ou mocinhas e vilãs. Com a virada para o século 21, os vilões foram sendo progressivamente promovidos para a categoria de psicopatas, numa espécie de upgrade da maldade, até que praticamente todo mundo se tornou psicopata.

Alguns anos antes, os trabalhos do pesquisador Robert Hare sobre a psicopatia ganharam tal repercussão mundial que o termo foi sendo incorporado pela sociedade, progressivamente usado como sinônimo de malvado ou bandido. Uma simples busca nas edições do Estado em seu acervo on-line mostra essa tendência: o termo "psicopata" traz 35 resultados na década de 60; na década seguinte sobe para 66; nos anos 80 são 173 resultados; há um salto para 546 na década de 90 e chegamos a 824 ocorrências para o termo na primeira década dos anos 2000. Isso piorou depois que Hare publicou Snakes in Suits: When Psychopaths Go to Work (Cobras de Ternos: Quando Psicopatas Vão ao Trabalho), em 2006, pois os psicopatas passaram a ser vistos não mais apenas nos criminosos, mas em todos os chefes cruéis, professores rudes e colegas agressivos.

O problema é que usar um diagnóstico médico - "psicopata" - como sinônimo de um enquadre jurídico - "criminoso" - traz consequências perigosas. Pois quando achamos que todo bandido mau-caráter, mesmo que seja capaz de afetos verdadeiros como parece ser a Carminha, é um psicopata, passamos a cobrar da medicina um tratamento para a maldade. E esse é um caminho propenso a abusos e destinado ao fracasso.

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