Se puder, ria, o grande desafio desta comédia

Se fosse possível decompor um filme e analisá-lo por partes, com certeza haveria o que elogiar em Se Puder... Dirija!. O filme é bem produzido, feito com apuro técnico e até o roteiro tem ideias interessantes, embora não originais. O pai que termina vestindo a fantasia de super-herói para reconquistar o filho - e a ex-mulher -, não deixa de ser reminiscência de um velho êxito de Arnold Schwarzenegger, mas a ideia de Um Herói de Brinquedo (Brian Levant, 1996) permanece válida. A consternação provocada pelo novo longa da Total deve-se ao fato de que, quando se juntam as partes, nada parece funcionar. E, para uma comédia, o filme é muito sem graça, mesmo contando com experts como Leandro Hassum e Luiz Fernando Guimarães.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2013 | 02h26

A primeira pergunta, a que não quer calar, é por que o filme foi produzido em 3D? O diretor pode dizer que a perspectiva surgiu como uma necessidade da história, já que o filme se passa em boa parte dentro do carro em deslocamento. Mas é, como se diz, ledo engano. Os maiores filmes de corridas de carros da história do cinema, as perseguições mais eletrizantes - em Bullitt e Operação França, para só citar os thrillers de Peter Yates e William Friedkin - foram filmadas em 2D. E a terceira dimensão, na verdade, nada acrescenta ao tom intimista - e familiar - de Se Puder... Dirija!.

É fato que o título também pega carona na série de Hollywood Se Beber Não Case, que também não é 3D. Enfim, trata-se de uma aposta da Total Entertainment, e a empresa deve saber o que faz. O ingresso é mais caro e, sem um boca a boca forte, o filme dificilmente vai explodir na bilheteria a ponto de justificar o investimento - e o 3D, é outro fato, encarece a produção. A história, em si, é pretexto para uma comédia de erros. Luiz Fernando Guimarães, com experiência comprovada no humor de TV e cinema (TV Pirata, Comédia da Vida Privada, Os Normais, etc.), é o chamado pai omisso, meio à deriva na vida.

Separado da mulher e sem muito tempo para o filho - sem tempo para nada na vida -, o personagem ainda tem um azar do cão. Depois de quase perder o aniversário do garoto, ele toma emprestado o carro da 'doutora' Barbara Paz no estacionamento em que trabalha. Sua meta é simples - quer apenas pegar o garoto em casa e levá-lo para o trabalho, para que ambos passem o dia juntos. Só que dá tudo errado. Com o cachorro no carro - e ele se chama Moleque, o que gera muita confusão -, o carro sofre tentativa de assalto, é multado e requisitado por PM para levar sua mulher grávida ao hospital.

Nada dá certo, mas ao longo da confusão do dia - e ajudado à distância pelo amigo (Hassum), que vai parar no hospital, o mesmo do parto -, o protagonista vai ter oportunidade de reavaliar sua vida e estabelecer, finalmente, prioridades. Como o filho é fã de super-heróis, caberá ao pai investir-se, ou não, do papel. O próprio roteiro possuiu uma estrutura e uma lógica. Ocorre que a boa comédia possui uma dinâmica para funcionar. Apesar dos apelos atuais, o modelo de Se Puder... Dirija! está lá atrás, na Hollywood dos anos de ouro, e é Levada da Breca (Bringing Up Baby), de Howard Hawks, de 1938, com Cary Grant e Katharine Hepburn.

Há 75 anos, Hawks filmou o diálogo veloz e imprimiu um ritmo insano à sua comédia, que se tornou clássica. Comparativamente, no afã de 'construir' o humor - o gag -, o diretor Paulo Fontenelle fez um filme devagar. O espectador antecipa o lance e, como um coito interrompido, não chega lá. Em vez de 'se puder, dirija', cabe melhor 'se puder, ria'.

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