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Se precisar, chame o Afonso Pena

Ele conhece alguém melhor que o seu profissional

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2021 | 03h00

Encontrei Afonso Pena tomando suco de mamão com laranja na CPL. Nos encontramos todos ali, aos domingos de manhã. Antes da pandemia éramos oito, a ler jornal, trocar ideias, bem cedinho. Tinha quem emendava para o chopinho antes do almoço em dias quentes. Agora, somos quatro. Gradualmente os pequenos encontros cotidianos começam a ser reativados. Estava feliz, comuniquei:

– Finalmente, de sorte, encontrei uma podóloga ótima aqui no bairro. Há tempos precisava dar um tratamento nos pés. A gente muda a vida, fica leve, solto. 

– Podóloga? Por que não me disse? Há tempos conheço uma ótima e aqui no bairro. Não tem melhor. Vou te dar o telefone.

– Não preciso marcar, a minha me deixa bem contente. A gente precisa ficar feliz e uma das maneiras é um bom trato nos pés.

– Não, você vai mudar. Nem imagina como a Rosanilce é incrível. Os aparelhos que têm…

– A minha tem todos, de última geração, impressionante a suavidade dela, as carícias que me faz com as mãos. Às vezes, durmo.

– É que você não conhece a Rosanilce. A massagem dela é daquelas de harém de filme chinês.

Você cochila, tem sonhos celestiais. Vai, anote aí o celular dela. Aliás, vou fazer outra coisa. Eu chamo e aviso que você vai. Para que tenha tratamento especial.

– Não precisa se incomodar. Já agendei encontro com a minha para todos os meses. Não fizesse isso, não conseguiria vaga, há uma baita fila.

– Você não sabe o que está perdendo, mas é problema teu, cada um sabe o que os pés precisam. Azar o seu!

Passadas semanas, encontrei Afonso Pena na mesma mesa da padaria. Desta vez foi na calçada, o tempo estava ameno. Contei que vinha tendo uns engasgos esquisitos, talvez fosse o tempo seco, a poeira das sete construções em torno de nós na mesma quadra. Mas que iria ao médico naquela mesma tarde.

– Médico? E quem é teu médico?

– José Eduardo de Lorenzo, filho do meu médico em Araraquara quando eu era jovem. O pai, Syrtes, o único Syrtes que conheci na vida, nome bom para personagem, era muito considerado. 

– Qual a especialidade dele?

– Clínico-geral…

– Pare, pare, você tem que ir a um especialista. Tenho um impressionante. Tive o mesmo problema, achei que ia morrer. Fui ao Pasetinho, cara superlegal, resolveu tudo.

– Mas o De Lorenzo é ótimo, engasgo é sua especialidade.

– Não é igual ao Pasetinho. Ele é tão bom que tem fila para agendar consulta. Fez cursos na Universidade de Illinois, em Nanterre, até salvou um xeque dos Emirados. Vou dar um jeito, você tem de se tratar com o Pasetinho, sujeito como figura humana.

Infelizmente o Pasetinho só tinha consulta livre para daqui a dois anos, andava tratando uma paciente superespecial chamada Tatiana, das maiores assistentes da Unesp. Deixei para lá.

Quarta-feira passada subia a pé para a Avenida Doutor Arnaldo onde ficam as floriculturas, uma atrás da outra, coisa bonita de se ver, vale passar a pé por ali para repousar a vista e a mente. Com quem dei? Com Afonso Pena. Toques de mão. Ele:

– O que faz aqui?

–O que se faz aqui? Vim comprar flores.

– Escute! Venha cá! Sei de um lugar muito melhor para comprar flores. Você nunca mais vai comprar em outro lugar. Consegui me desvencilhar do Afonso, mas tenho um conselho a dar a vocês.

Se alguém tiver problemas com febre reumática, lumbago, coqueluche, falta de ar, dor na lombar, enxaqueca, refluxo, pressão baixa, labirintite, desequilíbrio, pedra no rim, precisa de uma costureira para emergência, um dentista, me avise, chamo o Afonso Pena. Ele conhece alguém melhor que o seu profissional.

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE 'ZERO' E 'NÃO VERÁS PAÍS NENHUM'

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