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Se não eu, quem?

Tudo indica que teremos o de sempre no ano eleitoral: ideias rarefeitas e fofocas encorpadas

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

14 Março 2018 | 02h00

O cabalista Hilel afirmava na época de Herodes, o Grande: “Se eu não for por mim, quem o será? Mas, se eu for só por mim, que serei eu? Se não agora, quando?”. O neto do grande rabino foi Gamaliel, que viria a ser citado em Atos 5,34 como defensor dos apóstolos. O argumento do professor de Saulo de Tarso no Sinédrio era um desenvolvimento pessoal da ideia do avô: se a obra daqueles novos pregadores era coisa humana, desapareceria por si; se fosse obra de Deus, era inútil combatê-la.

Há muitas possibilidades de interpretar a frase de Hilel. Uma delas é pensar o papel que eu desempenho nos processos, retirando-me da voz passiva e incluindo-me nos resultados. Lição preciosa derivada da reflexão com dois eixos estruturadores: eu e agora.

Tive algumas longas conversas com um político. Minhas andanças fazem com que eu tenha muitos contatos com pessoas variadas. O centro da nossa conversa mais recente: eu falava do poder destruidor da exposição pública sobre as pessoas. Citei o depoimento de outro amigo que estava abandonando a política por considerar que somente os que não têm carreira devem se dedicar a cargos públicos. Após várias funções eletivas, o amigo quase fora da política expressava seu desgosto pela pouca eficácia da ação e pelos vícios da máquina estatal.

Tenho pouca crença na redenção do mundo via política, especialmente a partidária. Ainda que eu possa ler política em sentido amplo e aristotélico, como exercício do bem público e obrigação coletiva pelo bem, penso aqui em política em sentido específico de cargos partidários, pertencimento a partidos e eleições.

Adverti ao meu interlocutor: uma campanha política traz dados reais e inventados sobre o candidato. As duas categorias podem ser terríveis. Um aborto foi peça-bomba na campanha de Collor contra Lula. Meses depois, Collor seria acusado de cerimônias satanistas, uma relação homoafetiva e até supositórios de cocaína. Verdades? Mentiras? O importante é que um político deve desenvolver uma casca muito grossa, pois podres fictícios e concretos brotarão da cornucópia do marketing. Enganou um sócio no passado? Teve problemas com a Justiça do Trabalho? Não cumprimentava funcionários? Utilizou-se de profissionais de sexo? Existe uma ex-mulher ou ex-marido com raiva? Tudo do seu passado vai aflorar acrescido da injúria, calúnia e da difamação combinadas. Nas paredes da velha Pompeia soterrada pelo Vesúvio, havia pichações em latim insinuando os defeitos sexuais ou deficiências anatômicas dos candidatos. A prática é antiga, as redes sociais apenas atomizaram o golpe baixo que grassava à sombra do vulcão.

Lembro-me do Bem-Amado. Na trama divertida, Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo) acusa o candidato da oposição de ter tirado zero em prova de Religião no primário e pergunta aos eleitores, brandindo o dossiê com o boletim escolar, como um homem que não tem Deus no coração poderia presidir Sucupira? Tudo indica que Odorico ainda paira sobre nós e que teremos o de sempre no ano eleitoral: ideias rarefeitas e fofocas encorpadas. A culpa é circular: do marqueteiro que segue o protocolo de busca personalizada de defeitos até o grande público que quer saber mais se o candidato é marido exemplar do que se tem alguma ideia clara sobre economia.

Após a eclosão do escândalo de Watergate nos EUA, o eleitorado estava exausto da podridão de Nixon et caterva. O resultado foi a busca democrata por um ser impoluto que fosse modelo de religião e ética. O escolhido? Jimmy Carter. Descobriu-se em meio à explosão inflacionária do governo Carter que a honestidade era um apanágio desejável, mas não suficiente para um governo bom.

Voltando ao tema. Se a campanha e o cargo eletivo arrasam qualquer ser humano, quem em sã consciência enfrentaria a pororoca de fake news e de ódio? Quem abandonaria uma carreira sólida ou uma família estruturada para perseguir um cargo passageiro? Toda pessoa que deseje a presidência deveria ser submetida a um exame de sanidade mental? Pode ser considerado um homem equilibrado ou mulher razoável aquele-aquela que decide morar no Alvorada e trabalhar no Palácio do Planalto?

Volto aos argumentos do rabino Hilel. Se não eu, quem? Se eu não colaborar, quem o fará? Se eu me omitir, que coerência terei como pessoa? Se eu calar, quem falará no meu lugar? Questões complexas para resolver.

Ao final da sua experiência política, Simon Bolívar estava mais desiludido do que nunca. O espírito do Libertador, alquebrado pelo debate e pelas dissensões, foi descrito por Gabriel García Márquez no livro O General em Seu Labirinto. Quem lutava pela liberdade do Novo Mundo arava o oceano, dizia o caraquenho a outro general. Questionado se via saída, o general teria respondido: emigrar... Imaginem se o Libertador tivesse conhecido a internet ou os crimes feitos em seu nome.

Em resumo, caros candidatos a candidato: o preço da política é a alma do político. Não me refiro à questão de ética, todavia à destruição do seu espaço privado. O Fausto partidário tem de entregar tudo antes e não ao final do processo. Receio que alguns que estão dispostos a entregar a alma a Mefisto tenham uma de baixo valor e que as pessoas de almas elevadas estejam em dúvida. Que resposta eu daria a Hilel? Boa semana para nosso amado Brasil. 

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