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Ignácio de Loyola Brandão
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Se Antonio Candido não compreendia, imaginem nós

Ele engrandeceu o ensino, a literatura, o Brasil; com ele se foi parte da cultura nacional

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S. Paulo

26 Maio 2017 | 02h00

Antonio Candido foi o homem que engrandeceu o ensino, a literatura, o Brasil. Fui ao velório dele. Nunca vi tanta gente de alta estirpe reunida, de diferentes estilos e correntes. Ele não tinha inimigos? Nunca ouvi tantos casos. Momentos pessoais, atitudes, conversas ouvidas sobre ele. O que se relatou no velório daria para encher um livro maravilhoso.

Ficamos num canto, Florestan Fernandes Júnior, Humberto Werneck e eu a ouvir a prosa (acho que o professor gostaria da palavra prosa) e em todas havia o mesmo tom: provavelmente, Antonio Candido tenha sido um dos maiores conversadores que já se conheceu. E com uma memória espantosa. Aquelas histórias que corriam nada mais foram que a maior das homenagens. Reunidas em livro, trariam parte da história da literatura e do Brasil. Humberto mesmo (permita-me, amigo) disse que, certa vez, no aeroporto de Havana, esperando um voo da Cubana de Aviação (era uma temeridade voar por ela), Antonio Candido o convidou para um café. O café se estendeu por oito horas de papo, assuntos prazerosos. E nesse período o avião não partiu.

Se alguém tivesse feito uma foto panorâmica ou se um cineasta tivesse levado sua câmera (e ali estava Eduardo Escorel, um dos grandes, aliás, genro de Candido, marido de Ana Luisa) poderia ter realizado um documentário original. Nem todos os dias morre uma pessoa tão longeva, fundamental, modesta. Às vezes, brava. Com ele se foi parte da cultura brasileira. Naquela tarde, havia sol, mas também uma sombra cinzenta sobre o País. A sombra avançou na semana seguinte.

Nunca fui íntimo nem sequer convivi com este homem. Tinha inveja de quem trazia histórias dele. Um deles foi Jorge Schwartz, meu vizinho na rua, professor de literatura na USP, frequentador constante de seu apartamento na Alameda Joaquim Eugênio de Lima. Devo dizer, no entanto, que em momento essencial Antonio Candido me salvou. Quanto terminei meu primeiro romance, início dos anos 60, consegui chegar a ele usando uma cunha fortíssima, Gilda de Mello e Souza, sua mulher, de família araraquarense. O irmão dela, Renato Correa da Rocha, meu amigo, levou o original de Homem em Baixo Relevo. Veio a resposta: “Seu romance tem muitos personagens e são todos iguais, falam igual. É um monólogo monótono. Reduza todos a um ou dois. Porém, mesmo sintetizando não é bom”. Renato me traduziu: “Este não é bom dele quer dizer ruim, Candido é gentil”. 

Outra vez, cheio de timidez, preocupado, tive um encontro na casa dele. Educadíssimo, talvez um dos últimos cavalheiros da Terra, ele me recebeu para falar de Ruth Cardoso, eu preparava a biografia dela. Candido era o único que chamava Ruth por Rutinha, ela tinha sido sua aluna. Falou bastante, adorava aquela mulher, que igualmente cultivava boa conversa, principalmente com as pessoas mais simples. Que alunos este homem preparou!

Ao longo de minha carreira, nunca soube o que ele achava de minha literatura. Tinha a maior curiosidade: ele me considerava bom, ruim, mais ou menos, descartável, insignificante, o quê? A ânsia amainou quando meu Zero completou 35 anos e a Global, pensando em uma edição especial, comemorativa, solicitou-lhe um texto sobre o livro, mesmo sabendo que há anos ele não aceitava esse tipo de pedido. Generoso, ele escreveu um texto compacto, forte, que abriu a edição. Lembro também que, em 1977, ele foi o primeiro a assinar o manifesto que 1.046 intelectuais brasileiros fizeram contra a proibição desse livro (e os de Rubem Fonseca e José Louzeiro) durante a ditadura militar, abrindo caminho na luta contra a censura. Primeiro, pela ordem de assinaturas. Não sequência alfabética, tanto que o segundo nome foi Prudente de Morais Neto e o terceiro Oscar Niemeyer. 

Vinte dias atrás, tive uma pergunta a fazer para Antonio Candido. Uma pequena dúvida. Uma jornalista de Araraquara, Andressa Fernandes, me ligou: “O senhor sabe alguma coisa sobre a joia que Simone de Beauvoir ganhou de presente de Araraquara?”. Ela se referia à viagem de Sartre e sua mulher à minha cidade, em setembro de 1960. Andressa descobriu em um livro um citação sobre um broche que o joalheiro Reinaldo Garita teria feito para a cidade oferecer a Beauvoir em sua passagem por lá. A jornalista tinha investigado secas e mecas (opa!) e nada. Naquele dia, eu também estive na cidade como repórter do Última Hora. Saí atrás. Dez, 20 tentativas inúteis, ninguém se lembrava de nada. Vários que organizaram a ida de Sartre, como Fausto Castilho e Adolfo Casais Monteiro, já morreram. Vai daqui para ali, lembrei-me que Antonio Candido e Gilda de Mello e Souza tinham estado na caravana da USP que foi assistir à célebre conferência. Decidi perguntar ao professor se sabia da joia e pedi para Ana Luísa Escorel, a filha mais velha, que intermediasse, indagando do pai se ele sabia do broche. Minha última chance. No dia seguinte, veio a resposta. “Vai ter de esperar um pouco, papai está internado, em observação.” Assim que melhorar, pergunto.” A questão não chegou a ser feita. E se ele, que respondeu a milhares de perguntas de todos os tipos, soubesse alguma coisa sobre a joia?

Uma semana atrás, Maria Clara Vergueiro, neta de Antonio Candido, escreveu comovente depoimento sobre o avô na Folha de S. Paulo. A frase de abertura do professor nos livra parcialmente da ansiedade, da angústia que vivemos ao não entender este tempo. Lúcido, ele confessou: “Nasci em um mundo, e agora estou neste terceiro, que eu não compreendo, do qual não faço parte”. Uma epígrafe para o Brasil de hoje.

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