Scorsese paga seu tributo a Elia Kazan

Carta para Elia é um tributo e uma peça memorialística do cinéfilo. Nas belas imagens que coleta, e no que diz sobre elas, Martin Scorsese presta sua homenagem a Elia Kazan, um dos seus diretores favoritos nos tempos de formação, em Little Italy, onde ele assistia, encantado, cenas de filmes como Sindicato de Ladrões e Vidas Amargas.

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2010 | 00h00

Sim, há identificação entre eles, e que passa como um fio - às vezes visível, outras mais oculto - ao longo de todo o filme: a condição comum de imigrante nos Estados Unidos. Martin, filho de sicilianos; Kazan, nascido em Istambul. Estrangeiros, fechados em guetos na primeira infância. Fascinados pela cultura norte-americana que se expressa, para eles, em especial através do cinema.

Desse modo, é a vida de Kazan que Scorsese resgata através das imagens, mas é também a sua própria que evoca, através da outra. Uma memória que diz respeito a duas pessoas e a uma época, mas se transfere a todos nós, como experiência compartilhada. Assim como foram as outras grandes reflexões de Scorsese sobre a sua arte - Uma Viagem Pessoal Através do Cinema Americano (1995) e Mio Viaggio in Italia (2001), este sobre o cinema italiano em seus anos de formação. Carta a Elia entra como um capítulo adicional nesse percurso.

Ao mesmo tempo em que as imagens - extraordinariamente bem conservadas - de Marlon Brando em Sindicato de Ladrões são vistas na tela, a voz de Scorsese relembra que eram personagens que ele conhecia de perto. Gente sofrida, que tinha de lutar pelo pão a cada dia. Gente endurecida pela sobrevivência, mas que conservava no íntimo uma dignidade e um senso profundo de humanidade.

Essa identificação não impede que Scorsese toque no ponto mais polêmico da biografia de Kazan, a mancha maior de sua carreira e trajetória pessoal - ter denunciado como comunistas alguns ex-companheiros de juventude na época do macarthismo. Kazan depôs duas vezes no Comitê de Atividades Anti-americanas do Senado. Na primeira, não apontou ninguém. Na segunda, dedurou como esquerdistas oito pessoas que haviam trabalhado com ele no teatro. Scorsese lembra que Kazan escreveu um artigo no New York Times justificando seu ato pelo horror ao totalitarismo comunista. Foi como uma admissão de culpa.

Ficam os filmes - e estes, Scorsese estudava, cena a cena, para entender porque o haviam emocionado tanto. Sindicato de Ladrões, Vidas Amargas, América América, Um Bonde Chamado Desejo - obras-primas do cinema, filmes de Kazan que só crescem com o tempo. O homem é problemático; a obra é definitiva.

UMA CARTA PARA ELIA

Cine Livraria Cultura 2 - Hoje, 22h10

Cinesesc - Quarta, 21h10

Belas Artes 2 - Quinta, 20h10

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