SCHUMANN COMO POUCOS OUVIRAM

András Schiff registra em disco um itinerário menos conhecido do compositor

JOÃO MARCOS COELHO, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2012 | 03h12

Robert Schumann tinha consciência de que, em seu caso, vida e obra eram um fluxo contínuo. Respondeu assim a um amigo que reclamou por não escrever-lhe durante muito tempo: "Mas você pode ficar sabendo de tudo que me aconteceu se ouvir minhas composições". O autodenominado "poeta dos sons" desnudou-se diante de um mundo que não o compreendia. Afirmou sua diferença e finalmente destruiu-se por não suportar as dores deste mundo. "O que os homens não podem me dar", escreveu em seu diário, "a música me dá; todos os elevados sentimentos que eu não consigo traduzir, o piano os diz para mim."

O raro pianista húngaro András Schiff captura tudo isso no segundo álbum duplo dedicado à produção pianística de Schumann. O primeiro, de 2001, fugia das obviedades: tinha a monumental e pouco tocada Humoreske, op. 20, de quase 30 minutos, as Noveletten, op. 21 e a Sonata em fá menor, op. 14, apelidada 'concerto sem orquestra'. Sua segunda incursão schumanniana consegue ser tão ou mais decisiva quanto a primeira, (os dois álbuns são da ECM, o primeiro gravado ao vivo e este segundo, em estúdio, lançado em outubro). De novo, Schiff mostra um itinerário menos conhecido do compositor, como as raramente tocadas Sonata em Fá Sustenido Menor, op. 11, a Fantasia em Dó Maior, op. 17 e o Tema com Variações, o célebre 'tema dos espíritos', derradeira obra, concluída no dia da internação de Schumann no sanatório psiquiátrico de Endernich, em fevereiro de 1854. Entremeadas, gemas conhecidíssimas, como Papillons, Cenas Infantis, op. 15 e Cenas da Floresta, op. 82.

Aos 58 anos, Schiff é das mais aguardadas atrações da temporada 2012 da Osesp (em agosto, tocará com a orquestra e fará recital na Sala São Paulo). Independente, publicamente atrevido e corajoso além de excepcional pianista, só poderia mesmo ter a ECM como sua gravadora, única a lhe dar total liberdade. Pois ele reclama, quando o assunto é Schumann, que os pianistas em geral só conhecem e tocam suas obras mais conhecidas. "Schumann ainda precisa de quem o defenda e divulgue", diz, "especialmente as obras mais obscuras."

O Schumann de Schiff é diferente, mais nuanceado e ao mesmo tempo menos meloso. Passa longe dos maneirismos. Enfatiza o que Liszt chamou de "coerência romântica", tecida com fragmentos (no dizer de Charles Rosen) costurados com imensa delicadeza, como se fossem "improvisos planejados" (Linda Correl Roesner). Trata-se de um Schumann mais próximo de nós. Concepção que, confessa, aprendeu com Annie Fischer, outra pianista húngara preciosa. Não foi por acaso que em 1994 Schiff ganhou o Prêmio Robert Schumann em Düsseldorf.

São tantas as novidades nas pouco mais de duas horas de música que vou me concentrar só nas duas peças menos conhecidas (é claro que são magníficas suas leituras das Papillons, Cenas Infantis e Cenas da Floresta. Rivalizam com as mais incensadas entre as várias centenas disponíveis em gravações). Para entender o significado de sua maravilhosa interpretação da Fantasia em Dó Maior, op. 17, é preciso ouvir antes com atenção a leitura notável de Schiff da Sonata em Fá Sustenido Menor, op. 11. Como o repertório é construído de modo consistentemente lógico, a audição deve percorrê-lo na ordem proposta pelo pianista, senão se perde o sentido da arquitetura ampla de sua proposta. Ambas são do mesmo ano, 1836. Schumann enviou a Liszt o manuscrito da sonata, dedicada à sua amada Clara Wieck, de quem estava separado. A anotação de Liszt nos ensina muito sobre a música de Schumann: "Ele me enviou sua sonata acompanhada pela observação de que eu seria o único em condições de falar seriamente sobre ela (...) as ideias são conduzidas com uma lógica tão inexorável quanto concisa (...) o aspecto romântico de sua obra é algo tão novo, seu gênio tão grande, que, para avaliar com rigor suas qualidades, preciso ir mais fundo no estudo de suas obras". Liszt levou 16 anos para dar uma resposta musical a Schumann - e ela foi, imaginem, sua monumental Sonata em Si Menor.

Todos os pianistas tocam a segunda versão da Fantasia, feita depois por Schumann, e única publicada. Alan Walker, maior especialista moderno em Liszt, encontrou uma cópia da peça em Budapeste em 1979. Em 31'17" de música, há pequenos retoques, exceto na página final, correspondente a 1'30" de música. "Que final!", escreve Schiff no folheto do álbum. Após grande accelerando, Schumann finca pé num suspenso acorde de sétima diminuída; e após longa pausa, cita a melodia da sexta canção do ciclo À Amada Distante, de Beethoven. "Homenagem a Beethoven ou mensagem de amor a Clara?", pergunta-se Schiff. "Aqui temos um grande problema: Schumann riscou esses compassos e os substituiu por um final diferente. Bonito, nobre, simples. Mas soa menos inspirado que a versão de Budapeste. Schumann tinha muita autocrítica e constantemente corrigia suas obras (…) Neste caso fico com a versão Budapeste. E lhes ofereço uma faixa alternativa do último movimento, com o segundo final."

Além de musicalmente muito mais interessante, faz sentido optar pela cópia de Budapeste. Como indica Brigitte François-Sappey em no estudo sobre o compositor (Ed. Fayard, 2000), nesta Fantasia o tributo é triplo: a Clara, paixão de sua vida, pela escolha do tom (dó maior) e a quinta descendente inicial reproduzindo na notação alemã as letras de seu nome; a Liszt, porque o húngaro liderava a campanha de arrecadação de fundos para a construção de um monumento a Beethoven; daí à citação da melodia beethoveniana no final foi um passo. Vale comparar os dois finais - e encantar-se pelo brilho e ousadia (com direito a sétima diminuta) do primeiro finale.

Schiff colocou como título geral do álbum Geistervariationen ou Variações Fantasma. Trata-se da última composição de Schumann antes de sua internação em Endernich. No meio da noite de 17 para 18 de fevereiro de 1854, acordou excitado com um "tema dos espíritos" que lhe teria sido ditado pelos anjos. Nos dias seguintes, colocou-o no papel, com as três primeiras variações. Tentou suicidar-se em 27 de fevereiro, jogando-se no geladíssimo Rio Reno. Resgatado, pediu para ser internado no sanatório psiquiátrico de Endernich, onde escreveu as duas últimas variações. Em setembro seguinte, em sua primeira carta a Clara, contou que o tema dos espíritos lhe vinha à cabeça todas as noites, incluindo as variações. Ele morreria dois anos e meio depois, em 29 de julho de 1856, em Endernich.

"Quando estive em Düsseldorf a primeira vez", diz Schiff, "fiquei um bom tempo parado no portão da casa que um dia foi de Schumann e de onde ele saiu para se atirar no Reno." Ali nasceu a vontade de estudar essas variações, que Clara quase destruiu por considerá-las mera autópsia musical do marido. "Quando toco a quinta variação", diz Schiff, "sinto um zumbido de colmeia em torno de minha cabeça. Quando estudava a peça, não conseguia ficar longe dela. Gostaria de fazer um documentário para a BBC sobre isso."

É impossível imaginar a carga emocional que o pianista coloca nessas variações. A interpretação é aparentemente sóbria. Mas os que percorreram com ele o itinerário das peças do álbum, desde o início, atentando para as alusões literárias, poéticas e extramusicais, não conseguem ficar indiferentes a estes pouco mais de 10 minutos de música, em que os primeiros 6 minutos separam-se, pela escrita e clima, dos 4'27" finais. É de arrepiar. "Se o público tem dificuldades com Schumann, é mais pelo medo de não entender as alusões literárias, a constante mudança de climas e atmosferas e sua incrível imaginação." No caso de Schumann, vida e criação constituem mesmo um só fluxo contínuo.

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