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Schubert para dois

Paul Lewis e Steven Osborne gravam obras raras do autor, escritas para piano a quatro mãos

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2011 | 00h00

CRÍTICA   As primeiras décadas do século 19 assistiram ao triunfo do piano como instrumento hegemônico da vida musical. Como ele podia, sozinho, substituir uma orquestra em casa, virou rei nas noites pós-jantar das famílias de classe média europeias. Tocar a quatro mãos virou coqueluche, porque propiciava um até então inédito contato físico mais íntimo entre aluna e professor. Críticos e moralistas chegaram a acusar o piano pelo colapso da música de câmara, chamando-o de "usurpador tirânico", porque "encorajava a imoralidade ao permitir que os casais se sentassem muito perto enquanto tocavam a quatro mãos".

O gênero era um dos prediletos de Franz Schubert, um compositor que jamais conseguiu sucesso em sua Viena natal nas primeiras décadas do século 19. Contentou-se, então, em ser o rei das noitadas em casas de amigos regadas a vinho e boa música, onde reinavam as canções, a música para piano solo e peças camerísticas. O piano a quatro mãos só foi privilegiado por Schubert por um motivo bem específico: tímido, só compôs um bom punhado de peças a quatro mãos como modo de aproximar- se da princesa Catarina, filha dos Esterhazy , por quem apaixonou-se perdidamente. Ele tinha 21 anos quando a conheceu (ela tinha 13). Ele trabalhava como preceptor musical da família Esterhazy na Hungria. Seis anos depois, em 1824, Catarina já tinha 19; e ele 27. Apaixonou-se de vez. Datam deste emprego em dois tempos várias de suas peças para piano a quatro mãos.

Um ótimo CD recentemente lançado no mercado internacional, Piano Duets, do selo inglês Hyperion, mostra a imensa qualidade da produção schubertiana neste gênero tão específico, onde os pianistas precisam respirar juntos, frasear com um sincronismo irretocável e construir interpretações tão homogêneas que soem como se ouvíssemos um só pianista com quatro mãos e vinte dedos.

Um dos participantes do CD é Paul Lewis, que encantou as platéias paulistas no ano passado na Sala São Paulo, interpretando Beethoven, sua especialidade, em recital e concerto com a Osesp. O outro é o também inglês Steven Osborne, que merece uma visita a São Paulo. Pianista excepcional, gosta especialmente de repertórios alternativos. Já gravou Beethoven, Rachmaninov, Debussy e Ravel - mas é impactante de fato em peças de compositores tão pouco conhecidos como o romântico Charles Alkan, contemporâneo de Chopin, ou o russo Nikolai Kapustin, ainda vivo hoje aos 74 anos, que escreve música de tinturas claramente jazzísticas (Osborne gravou Alkan e Kapustin em CDs da Hyperion de 2000 e 2003).

Ao todo, o duo Lewis-Osborne registrou seis peças. À parte a conhecidíssima obra-prima de Schubert para quatro mãos - a celebérrima Fantasia em Fá Menor -, impressionam bastante o Allegro em Lá Menor D 947, o Andantino Variado em Si Menor D823 e as Variações sobre um Tema Original em Lá Bemol Maior D 813. Estas três com certeza foram usadas por Schubert para roçar os joelhos de sua amada Catarina ao piano.

Mas a faixa mais curiosa e desconhecida é uma fuga que Schubert compôs na madrugada de 3 de junho de 1828, quando visitou a cidade de Baden com o amigo e também compositor Franz Lachner. O editor que os acompanhava, Schich, disse-lhes que na manhã seguinte visitariam a pequena igreja de Heilingenkreuz, ou Santa Cruz, onde havia um órgão célebre. Schubert compôs então, naquela madrugada, uma pequena fuga a quatro mãos, que ele e Lachner tocaram na manhã de 4 de junho de 1828 - uma pequena gema, que felizmente o duo Lewis-Osborne revisita com talento e competência.

P. LEWIS E S. OSBORNE

PIANO DUETS

Hyperion, R$ 50

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